domingo, 22 de abril de 2012

O Sanfoneiro e as botas de couro marrom


Aurora exposta perante os olhos de quem olha para cima, para frente e quem está na janela.
Os pombos voam ao mesmo tempo para cima do mesmo cabo enquanto homens passam a passos longos na praça dos cinco bancos. O som do silêncio, ou por assim dizer a ausência dele como objeto audível é interrompido pelo acorde do sanfoneiro que vem caminhando e tocando seu instrumento alojado em seu peito, à frente do coração.
Crianças encantadas mordem os pedaços de bolos em suas mãos com os olhos virados para o sanfoneiro, que ainda não passa de uma silhueta ao fim do horizonte.
Nem mesmo o engenheiro, que era conhecido por enxergar muito bem à distância, poderia vê-lo com perfeição, não porque estava muito longe, afinal ele caminhava rumo à praça, mas pelos raios de sol que invadiam as retinas no fim da tarde.
Quando por fim um acorde saiu desafinado e alto e agudo tal qual um grito de espanto de uma virgem à mercê da noite, todos forçaram a vista e assim conseguiram rir com o sanfoneiro que pulava de um lado para o outo erguendo um dos pés, pulando e gritando.
-"O que houve, vovó?"
Perguntou o pequeno Tião sem entender a façanha.
A senhora de bastante idade e com chinelas de dedo expondo os pés explicou:
-"Eis o sanfoneiro dos pés descalços, aquele que chamam de Sanfona sola grossa, de certo ele pisou em algo que o fez gritar de dor e desafinou seu acorde pré-montado pronto para soar."
Intrigado com aquilo, Tião desceu do muro calçou os sapatos de cadarços desamarrados e correu rumo ao músico.
Quando chegou e viu que a velha estava certa, ficou decepcionado com a maneira de o sanfoneiro caminhar e perguntou se ele tinha problemas com os calçados.
O sanfoneiro disse que durante toda a infância, pobre infância, ele e seus irmãos eram obrigados a comer solas de sapatos por não terem comida em casa e por conta disso, há dezessete anos quando comeu seu último par de caçados ele decidiu andar descalço para que não precisasse mais comê-los.
Emocionado, o menino pediu que o sanfoneiro o esperasse e pôs-se a correr em disparada rumo ao fundo de um comercio velho e mal cuidado. Pouco tempo depois, o garoto volta com um par de botas nas mãos e diz:
-"Pronto senhor, essas botas são para o senhor usar e não mais desafinar sua sanfona enquanto encanta as pessoas com sua música. Como jamais comera botas, não se sentirá culpado por usá-las."
O sanfoneiro agradeceu a atenção do menino e partiu, prometendo passar pela praça novamente dentro de alguns dias, quando repetiria o itinerário.
Feliz e ansioso, Tião voltou para casa e esperou, esperou até que certo dia ouviu um som invadindo o silêncio.
Ao subir no muro, Tião notou a silhueta do sanfoneiro que parecia estar mais robusto e antes mesmo de comentar sobre o possível aumento de peso do músico, todos pararam e riram com o som alto e agudo da sanfona desafinada enquanto o sanfoneiro pulava de um lado para o outro com um dos pés erguidos nas mãos.


Mutante Di Amsterdam-FGF

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A vida secreta dos chapéus na chapelaria de Arthemus.

Por volta das dezenove horas, o velho senhor Arthemus e sua esposa Letleana trancavam a porta da chapelaria e subiam para sua residência que ficava no piso superior da loja.
A chapelaria funcionava de segunda à sexta feira das 08h às 19h, não abria aos finais de semana e feriados, isso era um hábito que Arthemus fazia questão de manter vivo enquanto ele mesmo também se mantivesse em tais condições, com seus batimentos cardíacos em ordem e sua pulsação ativa mantendo-o ativo e condizente à seus velhos hábitos.
Há trinta e oito anos aquela chapelaria se encontrava no mesmo endereço e era considerada um patrimônio para os moradores locais, que apesar do reconhecimento e admiração não compravam mais chapéus por considerarem um capricho de outrora, atualmente os rapazes usam bonés e chapéus são comprados em raras ocasiões sazonais.
Ainda assim, naquela noite o velho senhor Arthemus e sua esposa Letleana fecharam mais um dia de expediente e foram para seus aposentos.
Na vitrine da loja havia cinco tipos de chapéus expostos, um chapéu de palha traçada com bordas bem acabadas, um chapéu Coquinho, ao estilo Chaplin, um chapéu Panamá, muito visto em fotos de Tom Jobin, um chapéu Fedora, também chamado Borsalino, usado por Frank Sinatra e o tradicional chapéu do filme Indiana-Jones, que é fabricado no Brasil até os dias de hoje.
Temo que nada disso seja visto como algo diferente ou extraordinário, principalmente por se tratar de uma chapelaria, mas o fato é que começou uma enorme discussão na vitrine da loja naquela noite por volta das vinte e duas horas. Por mais absurdo que pareça, foram os expostos e empoeirados chapéus que gritavam e brigavam numa língua que só mesmo os chapéus entendem.
Tudo começou com Oklahoma, o chapéu de palha:
- Ainda que eu seja feito de palha e vocês cochichem à meu respeito, ainda que meu preço de mercado não seja tão alto quanto o vosso, ainda assim fiquem sabendo que saio em poucos dias, garanto à vocês.
- Isso é um absurdo!
gritou Frederico, o Fedora.
- Não creio que possam dar atenção às coisas que "esse aí" fala. Quem é ele, se não uma viúva do Masaropi? Já eu, eu sou visto até hoje nos filmes de Harrison Ford!
esse foi Grife, o Indiana.
- E você, Coquinho Scarpa, o que pensa disso?
perguntou Amor maior, o Panamá ao chapéu Coquinho.
- Penso que nada disso mudará o que está por vir, todos sabem em que época estamos e tivemos essa mesma discussão com Alabama, primo de Oklahoma no ano passado. Não adianta de nada tentarmos mudar os fatos, nosso tempo já passou, é muito raro ver alguém que se interesse por chapéus nos dias de hoje e como todos sabemos, os Palhas têm mais saída nessa época do ano. Com as quadrilhas e festas juninas em alta, todos procuram o bom e velho chapéu de palha. Enquanto a nós, o que temos? Nenhum festival, dança ou algo parecido para nos valorizar, com excessão de Grife, que vez ou outra é alugado para festas à fantasia, estamos sempre aqui sai ano e entra ano estamos sempre aqui.
assim falou Coquinho Scarpa.
- Poxa vida, Coquinho, você me deixou bastante chateado com essa conversa toda.
-Ora, Amor Maior, já deveria saber que às vezes passo um pouco dos limites, faz parte do meu temperamento, me perdoe meu caro amigo.
-Senhores.
começou Frederico, o Fedora após um momento de silêncio que se estendeu demasiadamente.
- Acredito que o que vivemos aqui hoje, prova que qualquer cidadão de qualquer lugar do mundo, eu disse do mundo todo, será muito sortudo se levar para a casa ou presentear alguém com peças tão nobres quanto sois, quanto somos.
-Concordo.
todos responderam em coro.
Na manhã seguinte, uma sexta feira de Junho, assim que abriu a loja, Arthemus notou que havia um senhor de barba ruiva que o aguardava. Após uma rápida negociação e algumas risadas ele vai até a vitrine e separa o chapéu de palha dos demais, embala-o com papel de seda, coloca-o cuidadosamente dentro de uma caixa branca de papelão e entrega a o embrulho ao homem, que sai da loja com pressa em atender o celular que tocava em seu bolso.
- É para a festa da escola de seu filho.
diz Arthemus à sua esposa que acabava de guardar o dinheiro na gaveta do caixa.
- Rápido, querida, separe o outro chapéu de palha e recomponha a vitrine sim?
- Pois não querido, afinal, é tempo de festa para esses pequenos.
Assim, Oklahoma foi levado de seus colegas de vitrine, como seu primo no ano anterior. Enquanto a mim? Bem, eu sou Porter'O, a Cartola que enfeita o manequim na entrada da loja, sei que não sairei daqui jamais, mas quer saber de uma coisa? Eu não me importo, sei que em algum lugar pessoas especiais ainda se importam com seus chapéus e continuarão a tradição de abas, tecidos e noites de junho.



Mutante Di Amsterdam-FGF.