sexta-feira, 29 de abril de 2011

Se é pra fingir eu finjo também.

Recentemente fui pego de surpresa pelo noticiário local, parece que a desembargadora está fingindo ser louca, fingindo desmaiar e fingindo orgasmo para o deputado.
Louco para mim é quem rasga dinheiro, não quem cobra propina para aumentar a quantidade.
Mas eu estive pensando senhoras e senhores, estaria essa excelente profissional agindo de maneira tão inesperada e surpreendente assim?
Analisando brevemente a história da humanidade, eu descobri que a arte de fingir é tão antiga quanto andar pra trás.
De acordo com um documentário que eu assisti chamado: "Jurassic Park-Parque dos dinossauros", de um historiador chamado Steven Spielberg, descobri que desde a época dos dinossauros as pessoas já fingiam, tinha que se fingir de morto e não se mexer para que o Tiranossauro Rex não percebesse sua presença e fosse embora.
Descobri também que até Jesus Cristo teve muito problema com esse negócio de fingir, principalmente porque Judas Iscariotes que fingia ser seu amigo era na verdade o maior x9, traiu Jesus na cara dura.
Adolph Hitler fingiu ser normal durante muitos anos de sua vida, Sabrina Sato fingiu gostar do Dhomini pra durar mais no jogo, Fredo fingiu não saber de nada para Michael naquele caso polêmico que chamaram de "O poderoso chefão parte 2", o Tiririca fingiu ser palhaço até representar eu, você e a nação no congresso.
Na verdade, a própria verdade já fingiu ser verdade para diminuir a intensidade da realidade.
Eu mesmo finjo, é verdade, várias vezes já tive que fingir estar sóbrio.
O ex-presidente fingia não saber de nada e o povo fingia acreditar, os economistas neo clássicos fingiam ser liberalistas e os camponeses fingiam estar de acordo, quando na verdade estavam prostitutos de suas existências ( para não dizer putos da vida).
Quantas vezes eu já vi adolecentes fingindo que estão dormindo nos transportes públicos só para não darem lugar aos mais velhos, que fingiam estar cansados por serem mais velhos.
Todo mundo finge, me mostre uma pessoa que não finge que eu te direi que ela está fingindo, certeza.
Portanto, será que devemos condenar a desembargadora dessa maneira, até o advogado dela finge que somos todos retardados e o juiz finge que concorda. Coitada, acaba de voltar da Itália e vai em cana, que maré de azar é essa. Eu proponho o seguinte, deixa ela fingir que desmaia, a gente finge que não sabe do dinheiro, o juiz finge que são inocentes e o Brasil finge ser um país decente. Pronto, muito mais fácil e cômodo, da até pra fingir que eu concordo com isso.


Mutante Di Amsterdam-FGF

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Zeca do Arco Cap. 2 - A viagem presidencial

Na manhã amena daquele 21 de Março, José Carlos não esperava ser acordado por ninguém, ele estava sonhando com Vera Fischer, eles estavam numa suite no Copacabana Palace e ela estava toda carinhosa com ele. Ela dizia amá-lo e admirá-lo e dizia também que nunca havia se deitado com um super herói antes, ele estava prestes a beijá-la quando acordou ao som da doce voz de Steicy Silva, sua esposa:
-Pode acordando aí seu vagabundo, que porra de emprego é esse que você num sai de casa caraio?! Tá estranho isso aí Zé, pode levantar que hoje cê vai lavar umas loça. José Carlos odiou sua mulher naquele momento, mas preferiu se calar. Enquanto lavava a louça suja, pensou no tempo que havia se passado desde o convite para ser o herói Zeca do Arco até agora, já estava completando seis dias e nenhum telefonema, telegrama, scrap ou twitter, José limpava seu arco todos os dias, separava e passava uma flanela nas suas flechas uma por uma, e olha que são trezentas flechas, nunca precisou de nada disso, ele já estava até considerando a hipótese de aquilo ter sido um trote ou uma daquelas "pegadinhas" da TV. Chateado e com vontade de fazer cocô, Zeca do Arco estava arrependido de ter levantado naquela manhã. 
Mas como Zeca é brasileiro e brasileiro tem que se fuder, aquilo foi só para testar a paciência do herói, pois as onze horas daquele mesmo dia o telefone tocou. José Carlos correu e atendeu eufórico e um pouco dispineico:
- Alô, alô, pode falar!
-Sr. José Carlos Silva?
- Depende, quem é?
- Claudio, do governo.
- Claudio, acho que você já sabe que não tem ninguém aqui com esse nome, certo?
- Ah não, tudo bem, por favor o Zeca do Arco?
- Pois não! Pode falar cidadão!
- Sr. José, acredito que o senhor não tenha prestado muita atenção quando lhe pedi sigilo sobre essa situação.
- Ora, mas por que?
- Primeiro porque o senhor está gritando e todos os vizinhos devem estar ouvindo sua conversa, segundo porque eu estou ouvindo sua esposa lhe perguntando se vai ter que matar alguém. Por favor senhor José, peça para que ela saia e preste muita atenção.
- Sim, sim, desculpe. Pronto, pode falar.
- A presidente fará uma viagem à Manaus amanhã, dia 22 de Março, ela irá tratar de assuntos políticos e fará um discurso sobre os projetos de governo para a região.
- Sim, tudo bem.
- Porém, nós estamos desconfiados de que alguns extremistas farão um ataque contra à nossa representante, por isso mobilizamos toda a força tática da polícia e o exercito, teremos soldados à paisana e policiais se passando por civis.
- Nossa!
- Sim, será armamento pesado, por isso cabe a mim agora te passar sua missão.
O coração de Zeca estava aceleradíssimo, ele estava muito feliz por receber sua missão, sua primeira missão.
- Sou todo ouvidos Mr. C.
- Me chame de Claudio mesmo.
- Desculpe.
- Bem, preste atenção e não anote nada, tudo deve ficar apenas na sua memória. A sua missão é fingir que não sabe de nada, você deverá agir normalmente, como se nós nunca tivéssemos nos falado antes.
- Certo, mas o que eu faço?
- Nada, você não faz nada! Ora Zeca, você é arqueiro, precisamos de artilharia pesada aqui. Fique em sua casa e não diga nada a ninguém, seu país agradece. Tenha um bom dia.
Claudio desliga o telefone.
José não consegue acreditar no que acabara de ouvir, ele não se contenta em não fazer nada, ele quer ajudar, ele quer trabalhar, ele quer é atirar umas flechas e pegar uns bandidos. Como ele já tem informações o bastante ele decide agir.
-Steicy , não me espere para o jantar, vou trabalhar e volto em dois dias.
- Demoro, não esquece de pegar a merda do Sarney antes de sair, tá achando que eu sou sua empregada?!
José limpou os dejetos de seu cachorro e saiu.
Como ele sabia que a presidente estaria em Manaus, ele logo pensou numa maneira de ir para lá. Sua grana não era o bastante para pegar avião e o agente do governo já havia lhe contado que a condução era por conta própria. Então ele pensou em ir de ônibus, mas jamais chegaria a tempo. José se vê num beco sem saída. Como já havia saído de casa ele resolveu parar no botequim da rua de baixo para pensar em algo.
Estava muito calor naquele dia e ele resolve pedir uma cerveja apenas para refrescar. Já no fim da tarde, sem camisa e embriagado José percebe que já havia contado a história de super herói para todos do bar, ele tirava fotos com os filhos do garçon, deixava as pessoas brincarem com o arco, deu autógrafos e gastou o dinheiro da passagem para Manaus. Até que, quando resolve ir embora, um homem se aproxima dele e diz:
- Seu Zeca, eu trabalho na rodoviária, se o senhor precisar de passagem para alguma missão, pode me ligar, prometo sigilo, eu te ajudo e o senhor deixa eu ser tipo o Robin?
- O Robin?
- É, tipo seu ajudante, manja?
- Ah sim, mas como é seu nome, garoto?
- É Robson, mas pode me chamar de Robinson.
- Legal, obrigado pela força Robinson, pena que já tá tarde pra ir pra Manaus, mas com a sua ajuda eu farei qualquer missão de agora em diante.
Então, saindo do bar com seu arco e 299 flechas(uma ele deixou com o filho do garçon), Zeca do arco voltava para a casa com seu mais novo parceiro, Robinson, disposto a lhe ajudar com passagens de ônibus para todo o território nacional. Uma vitória para o herói, que ao chegar em casa não foi notado pela família, mas encontrou uma correspondência do governo que dizia:
"Bom trabalho, Zeca do Arco, missão cumprida.
Manteremos contato."


Mutante Di Amsterdam-FGF

terça-feira, 26 de abril de 2011

Broto Fenomenal

Rapaz, dia desses eu estava sentado ao banco da praça quando ela passou, linda de viver, com seu vestido branco com flores amarelas e azuis, cabelos curtos, cacheados com uma presilha que imita borboleta. Logo perguntei para Onofre, que estava ao meu lado:
- Bicho quem é esse broto fenomenal?
Onofre, que conhece a todos no bairro respondeu:
- É a Dorinha, ela mora no 274, vizinha de Vilma.
- Onofre, acho que estou amando loucamente essa bonequinha.
- Ora, Martinho, essa garota é papo firme, jamais ficaria com alguém com a fama de mau como a sua.
- Escuta o que eu to te falando cara, esse broto vai ser meu, mora?
- Mas és um sonhador mesmo.
Na manhã seguinte, cheguei mais cedo, pode até parecer pretensioso da minha parte, mas eu trazia flores para agradar Dorinha, eu estava ansioso, quando de repente, fui surpreendido por Onofre, que se sentara ao meu lado com seu melhor paletó, e trazia uns botões de rosas consigo.
- Ora Onofre, que fazes aqui com essas flores, e essa roupa? Só te vi com esse paletó quando fomos ao velório do Sinval, há uns dois anos, mas o que é isso?
- Pronto, agora eu te devo satisfações, Martinho?
- Já saquei o que está acontecendo aqui, você veio cortejar Dorinha também, só para me prejudicar, qual que é a tua, o cara?
- Isso mesmo, eu vim pra isso mesmo, por acaso não posso me apaixonar, será você que decidirá os rumos do estúpido cúpido, eu gosto da Dorinha sim, além do mais, eu vi primeiro.
- Ah é, Onofre, pois então pode vir quente que eu estou fervendo!
E foi isso mesmo, era só o que me faltava agora, estar apaixonado pela namoradinha de um amigo meu. Fiquei sem falar com Onofre por uns dez minutos, até que ele me cutucou:
- Veja, veja Martinho, lá vem a Dorinha, vou me apresentar, não me atrapalhe ou então te mostro o que é bom pra tosse.
- Bom dia Dorinha. Trouxe essas flores para te agradar.
- Ah, muito obrigado, Onofre, mas na nossa idade isso não pega bem, imagina o que vão dizer lá em casa.
Então, eu dei o meu primeiro passo:
- Muito bom dia Dorinha, sou o Martinho, amigo de Onofre, eu te trouxe essas flores para me apresentar, assim não vai pegar mal quando você chegar em casa.
- Ora, muito obrigado, meninos. Agora preciso ir, ainda tenho que fazer o almoço.
E Dorinha se foi. Ah, não sei se mencionei, mas Onofre  e eu temos 72 e 70 anos, respectivamente, Dorinha deve ter uns sessenta e poucos, não perguntei porque fica mal no primeiro encontro.
- Ta vendo só Onofre, ela nem ligou para seu paletó do Jerry Adriani, ela gostou mesmo foi de mim, mora?
- Só porque você quer Martinho, a garota é papo firme e ta na minha.
Logo menos a tarde caiu, acordei Onofre e fomos embora. Na manhã seguinte repetimos o gesto, e na seguinte e na seguinte e nos próximos dias que vieram, não demorou muito para sermos conhecidos como os velhos babões que cortejam a dona Dorinha, mas nem ligamos, acho mesmo é que os rapazes de hoje em dia nem sabem como se portar diante de uma pequena.
Mas Dorinha nos deixou com os corações nas mãos, ficamos sabendo pela sua neta que ela falecera na última semana, mas que todos os dias falava sobre os dois velhos babões que a cortejava e lhe dizia palavras doces na praça, disse também que sua passagem para a eternidade fora feliz e pacifica, ela falecera em sua poltrona com duas cartas nas mãos, uma minha e a outra de Onofre. Não quis comentar na hora, mas tenho certeza que ela gostou mais da minha.
Descanse em paz, broto fenomenal, pena que não pude te levar para ver as curvas da estrada de Santos, ou para tomarmos um banho de lua juntos, mas tenho certeza que nos veremos outra vez. 



Mutante Di Amsterdam-FGF

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Cézar Kahda Dent'áhria, o boca de bosta.

Cézar Kahda Dent'áhria tem problema nos dentes.
Filho de um lituâno homossexual e uma manicure boliviana, Cézar já começou errado.
Ainda menino, Cézar costumava levar muitos tapas na boca, principalmente de Consuello, sua mãe, ele gostava de falar palavrões e isso incomodava seus pais, que só queriam dar uma boa educação ao seu filho.
Aos sete anos de idade, quando brincava em frente ao salão de beleza de seu pai na pequena e pacata cidade de Porto Suarez, que não tinha mais de doze mil habitantes, Cézar foi pego de surpresa pela sua mãe justamente enquanto cantava a canção de sua autoria que era mais ou menos assim: "O cú do porra saco,
na puta que pariu, fudeu o merda e o porra na bunda do piu piu".
Naquele momento Cézar tentou se esconder embaixo do avental de seu pai, mas notou que Rámon já estava lá, então ele fechou os olhos e tentou relaxar, Consuello pegou seu tamanco de sola de madeira barata e deu de direita na boca suja de seu filho.
Cézar, para o espanto de todos não chorou, o rosto vermelho do menino estava adormecido e ele não sabia se estava acordado ou se sonhava. De repente, o pequeno Cézar abre a boca e deixa cair um dente.
Consuello ficou preocupada, afinal, ela viu que aquele já não era mais um dente de leite, era definitivo, mas para seu próprio conforto e afim de se livrar do sentimento de culpa ela completou: "pare com os palavrões e os doces também, já está com os dentes fracos".
Cézar pensou em argumentar, mas ainda estava um pouco confuso. Daquele dia em diante, os problemas bucais do menino só pioraram. Quando ia para a escola ele sofria Bulling, por conta de seu mal hálito.
Ao se queixar com seu pai, que era um homem bastante alegre, foi orientado a levar tudo na brincadeira e sempre que fosse possível, chupar um drops. Ao dizer "chupar um drops" o pai de Cézar fechou os olhos e mordiscou o beiço, o garoto não entendeu mas seguiu o conselho.
Então,no dia seguinte na escola ele foi recepcionado assim:
-Nossa, Cézar, você por acaso comeu bosta no café da manhã?
Ele pensou em chorar e correr, como costumava fazer, mas lembrou dos ensinamentos de seu pai e levou tudo na brincadeira respondendo:
-Comi sim, mas sem cebola para não dar bafo.
Todos riram e aos poucos Cézar ia se enturmando mais e mais e também desenvolvendo um talento especial em se relacionar com as pessoas, mas seu hálito ainda era um problema, mesmo para aqueles que gostavam dele. Sempre que ia conhecer alguém ele tinha que ficar quieto e mostrar um bilhetinho para a pessoa que dizia: "Olá, meu novo amigo(a). Sou o Cézar e sofro de um problema bucal raro, não tenho todos os dentes e os que ficaram estão apodrecendo na minha boca, fazendo com que eu tenha um hálito de merda misturado com animal morto. Vamos brincar?" Isso funcionou por um certo tempo, mas conforme Cézar foi crescendo os problemas foram aumentando.
Sempre que alguém fosse se referir a ele, o chamava pelo nobre pseudônimo de "boca de bosta", então na faculdade o professor dizia: "fez o trabalho, sr. boca de bosta?" e coisas do tipo, o que sempre fazia com que os outros alunos rissem de Cézar. O fato de ele não conseguir uma namorada também o incomodava, só não era virgem porque frequentava burlescos, mas por mais dinheiro que oferecesse, ninguém o beijava.
Tristes então viraram os dias do boca de bosta, digo, de Cézar Kahda Dent'áhria, até que seu amigo de infância Juarez "sem nariz" Waldez, lhe mostrou uma matéria do jornal local que falava sobre a internet e a possibilidade de as pessoas se comunicarem por "WebCams", sem contato pessoal, porém ao vivo.
Cézar achou aquilo incrível, vendeu a coleção de pelos pubianos de estrelas de Hollywood de seu pai e comprou um computador.
Dali em diante, ele descobriu que podia se comunicar com o mundo todo, deu palestras, fez campanhas on line para insentivar pesquisas sobre seu problema bucal, lançou uma banda de mambo gospel e descubriu as maravilhas que a industria pornográfica pode oferecer se você aceitar entrar em sites alegando ter mais de 18 anos.
Hoje ele espera seu  ultimo dente podre cair, para poder sair e ter uma vida normal, banguela e alegre aos vinte e dois anos.


Mutante Di Amsterdam-FGF

domingo, 17 de abril de 2011

Introdução à Zeca Do Arco, o super herói brasileiro.

Introdução:
José Carlos Da Silva é um típico brasileiro, pai de uma menina de nove anos e morador de  um bairro de periferia. A princípio, um cidadão comum, com as dificuldades e obrigações comuns a todos os brasileiros, porém, numa certa manhã, José recebe a visita de um agente do Governo que lhe faz uma proposta de emprego, um emprego peculiar e sigiloso, oferecendo uma oportunidade para José Carlos que já estava desempregado há quase seis meses. O agente diz que o perfil de J.C. é perfeito para a vaga de Arqueiro, atividade que ele exerceu grande parte da sua vida como instrutor, para trabalhar em missões especiais contra a criminalidade. A partir daí, muita confusão e situações inéditas acontecem na vida do brasileiro, a começar pelo fato de ele não poder revelar sua identidade secreta, forçando-o a inventar um nome fictício, depois, ele descobre que nunca poderá entrar em conflito com nenhum meliante, afinal, todo mundo usa arma de fogo nos dias de hoje, e ele é só um arqueiro, para terminar, José descobre que irá receber dois salários mínimos e uma cesta básica se aceitar a vaga, o transporte é por conta dele.
As histórias de Zeca Do Arco serão contadas através de capítulos.
Hoje, o primeiro, contará a iniciação do brasileiro no mundo "encantado" dos super-heróis. Espero que todos gostem e se divirtam com essa minha nova proposta.
Mutante Di Amsterdam-FGF. 

Capítulo 1- Meu nome é Arco, Zeca do Arco.

Mal tinha raiado o dia quando Steicy Silva, esposa de José Carlos Silva , gritou do quintal dos fundos:
-Acorda Zé, levanta que esse seu cachorro vira-lata cagou o quintal inteiro. Anda vem limpar essa merda!
Marcos, que era vizinho do casal e fazia "bicos" como alfaiate de bonecas Barbie logo se manifestou do puxadinho ao lado:
-Cala boca caraio, num tá vendo que tem gente dormindo, são seis da manhã!
Steicy, que não era muito ligada às boas maneiras respondeu:
-Cala essa boca você Marcos, se tem gente dormindo eu não sei, mas você não é gente pra mim. Zé, anda logo e vem limpar isso antes que faça uma loucura aqui.
Ainda deitado, José Carlos Silva, desempregado, se esticava da cabeça aos pés, buscando forças para se levantar. Apesar do começo de manhã conturbado, aquele era mais um dia lindo e promissor para o ex-arqueiro. Ele se levantou e caminhou até o banheiro, estava de camiseta e cueca samba-canção, teve que esperar um pouco até começar a urinar, isso porque José sofre de ereção matinal, apesar de nunca ter se incomodado com isso também. Saiu do banheiro com os dentes escovados e cabelos penteados, foi até a dispensa e pegou seu kit de limpeza, afinal, desde que chegou em casa com Sarney, seu filhote de vira-lata, José é responsável por manter o quintal onde vive o bichinho limpo e na medida do possível, apresentável.
-Bom dia Sarney, vejo que você não poupou espaço essa noite hein, será que a fábrica não para nunca?!
O cãozinho, abanou o rabo mas não saiu da casinha.
Com o sol já bem claro e os pássaros cantando, José foi acordar Luiza, sua única filha de nove anos de idade.
-Lú, Luizinha, Lululululuiza?!Acorda, meu amor.
-Saí, saí daqui seu retardado.
Luiza puxara o gênio da mãe.
-Acorda filha, senão você se atrasa pra escola.
-Tá bom, já vou. Já vou.
Enquanto preparava o lanche para a filha, Steicy assistia seu programa diário matinal, José era responsável por manter a ordem da casa, ele sabia que se dependesse de sua mulher e filha, todos viveriam em um cortiço.
Às sete em ponto a perua escolar buzinava lá fora e Luiza ia para a escola, sobrava então a louça do café da manhã para José lavar, tarefa essa que ele realizava com o maior prazer, ele achava que lavar louça era terapêutico. Quase duas horas mais tarde, enquanto escovava o pelo do Sarney no quintal dos fundos, José é chamado por sua amada, que estava na porta da frente:
-Zé, vem logo que é pra você.
-Quê? Quem é?
-Num sei não caraio, você vai vim ou não?!
-Claro amor, claro, só um minuto.
Quando chegou na sala, ainda com pelos de cachorro grudados na roupa, José Carlos cumprimentou o homem de terno e gravata com um certo receio, notou que ele segurava uma pasta e tinha um papel meio amassado com o endereço dele na mão. O homem pediu educadamente que Steicy se retirasse para que pudesse falar com José à sós.
A moça, apesar de desconfiada saiu, ela também estava achando que o marido estava numa roubada ali.
-Muito bom dia, senhor José Carlos, sou Claudio, trabalho para o Governo e tenho a honra de lhe informar que o senhor foi o escolhido para trabalhar a serviço do seu país.
-Eu? Como assim, não sei fazer nada....
-O senhor foi instrutor de arco e flecha não? Pelo menos é o que consta aqui.
-Sim, sou muito bom nisso, inclusive.
-Pois então, o senhor será o arqueiro oficial do Governo, irá trabalhar com a força tática especial e receberá dois salários mínimos, isso mesmo, eu disse "dois" e mais a cesta básica.
-Mas o que eu devo fazer?
-Ora, não se preocupe, nós entraremos em contato com o senhor e lhe passaremos alguns trabalhos, fora isso, o senhor pode continuar com sua vida normalmente.
José estava quase explodindo de felicidade, ficou tão contente que não conseguiu nem segurar um peido. Ele pensou na sorte que estava tendo, afinal, seu seguro desemprego vencia naquele mês.
-Tudo bem, senhor Claudio, eu aceito, claro, será um prazer servir minha pátria.
-Muito bem, por enquanto é só isso. Ah, claro, precisamos que o senhor arrume uma identidade secreta, não queremos expô-lo assim, o senhor tem família, pode ser perigoso.
-Claro, claro, tem razão....hum...pode me chamar de Arco, Zeca do Arco.
Disse José com o peito cheio de orgulho.
-Mas que ridículo, tem certeza que será isso?
-Ora, tenho sim, por favor.
-Tudo bem, tudo bem, apenas tente não comentar com ninguém essa conversa que tivemos hoje, isso é confidencial. Fique tranquilo que entraremos em contato.Obrigado.
O agente do Governo foi embora e José então fechou a porta se sentindo a pessoa mais especial do mundo todo.
-Mulher, se arruma que nós vamos sair, vamos almoçar fora! Chame sua mãe e sua irmã, chame também o Marcos e todo mundo que a gente conhece, eu conto tudo quando chegarmos na barraca de lanche.

Mutante Di Amsterdam-FGF

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A aposentada, o despertador e o ambulante

Às sete horas da manhã tocou o despertador de Cidinha, mas ela não se levantou. Sete e cinco tocou novamente, seu sono estava ainda mais pesado pois ela sequer o parou. Às sete e dez tocou outra vez. Do lado de fora da casa humilde de Cidinha, as pessoas que passavam para trabalhar conseguiam ouvir o som do despertador que reproduzia a belíssima canção do grupo Calipso:' "A lua me traiu".
Alguns pedestres um pouco mais inseguros tiravam seus fones de ouvido para certificarem-se de que realmente ouviam aquele som. O rapaz de bicicleta que vendia pães quentes parou e inclinou o rosto em direção a janela do quarto de Cidinha, ao calçar seu pé direito no pedal para continuar seu caminho, comentou o gosto musical duvidoso da dorminhoca com os seguintes dizeres: "que porra é essa?!"
Achei fino e sutil, eu mesmo não conseguiria me expressar melhor. Sei de tudo isso porque eu estava na calçada da frente, sou vendedor ambulante e tenho aqui o DVD do show do Calipso inclusive. Alguns comentavam com seus parceiros se aquela se tratava de uma casa de preguiçosos, se os moradores não teriam medo de se atrasar para os seus empregos, até sobre um possível óbito matinal comentou-se, porém, vez ou outra ouvia-se o tapa da Cidinha desligando o alarme.
Às sete e quarenta e cinco o alarme disparou novamente, Martha, a vizinha evangélica de Cidinha começou xingar e proferir palavras direcionadas à Cidinha que se o pastor de sua igreja ouvisse ficaria até vermelho. Mesmo assim, às oito horas o relógio tocou outra vez.
O bairro se mobilizou para tomar alguma atitude, a princípio muitos se mostraram preocupados com os possíveis problemas que Cidinha pudesse ter por não se levantar no horário programado, mas conforme o tempo foi passando, a preocupação foi se transformando em raiva e já chegava o momento de algumas pessoas atirarem pedras e ovos na janela de Cidinha, que inocente dormia o sono dos justos, afinal, depois de 56 anos de trabalho como doméstica, Cidinha estava aposentada, não tinha horários, não precisava se levantar, mas parece que sua liberdade e seu direito de deixar o despertador tocando e desligá-lo, como uma espécie de revanche por ter que se levantar ao som dele todos esses anos, parece que isso não era bom para o povo que se agrupava na janela de Cidinha, eles não sabiam mais nem o motivo daquilo tudo, mas gritavam e atiravam coisas sem parar. Com medo, a aposentada desligou o rádio e se levantou, meio sonolenta ainda e com a vista sensível à luz ela olhou pela porta da frente. Aquele bando, furioso e violento,xingava e atirava coisas na casa de Cidinha, até que um deles falou: "Finalmente acordou né, velha do caralho". E ao som de alguns burburinhos as pessoas  retomavam seus caminhos até que a rua voltou ao seu movimento normal. Curiosa, Cidinha ainda de camisola, aliás, uma visão que eu preferia não ter presenciado, me perguntou o que estava acontecendo. Eu, sem saber até hoje o porque, disse que o povo estava reclamando pois o som estava muito baixo. Espantada por todo aquele movimento e ainda meio sonolenta, ela prometeu que na manhã seguinte aumentaria o volume e providenciaria uma caixa de som externa para que não ficasse muito alto dentro de seu quarto, mas que todos na rua pudessem ouvir.
Daquele dia em diante, mudei meu ponto para a rua de cima, mas até hoje há quem diga que a história acabou muito bem, a casa da Cidinha se tornou um "point" entre os jovens, a aposentada começou a fazer docinhos para vender e toda semana arrecada mais de duzentos reais. Pena que semana que vem a prefeitura irá multa-la por quebrar a lei do "psiu".

Mutante Di Amsterdam-FGF

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Ô Manuel, mas que raios, me dá mais um iPad. Ora pois!

Nesta última Quarta-feira (13/04/2011), além do super feirão de frutas e legumes das redes de hipermercados também foi anunciado para o mundo o novo acordo entre Brasil e China que permite a produção tupiniquim do tablet sem açúcar mais vendido no mundo, o iPad.
Não pude deixar de notar a primeira reação das pessoas quando ouviram a notícia, salvo algumas excessões, a grande maioria logo de cara mandou um: "Oba, vai ficar bem mais barato!"
Isso, se deve ao fato de  a maioria dos doze ou treze seres humanos que eu acompanhei terem lido apenas as manchetes e não se atentarem muito às notícias.
Há uma lógica indiscutível no pensamento do consumidor de que se o produto for feito aqui o preço tende a abaixar, porém, a autonomia produtiva brasileira vai só até a segunda página.
Primeiro balde de água fria(ou podemos até chamar de caneca vai...): o Brasil tem autorização para produzir apenas a tela dos tablets, os materiais devem ser importados para que se monte o tal do iPad, isto é, com o Governo tentando reduzir a entrada do dólar no país, a importação não deve sair barata, pode separar o "dos tributos" aí, ainda há uma preocupação em relação à valorização do Real, que por sinal já era de se esperar, estamos presenteando nossos brothers com 11,25% de taxa de juros, além do fantasma da inflação, que insiste em querer assombrar o Governo.
O segundo balde, e esse realmente é de dar vergonha alheia: foi anunciado um investimento de 12 milhões de dólares e 100 mil novos empregos nessa brincadeira.
A não ser que eles pretendam "roubar" todos os funcionários das outras empresas, já podemos avisá-los: " não vai rolar". O brasil tem um défict de tecnologia da informação de 92 mil funcionários. Será tão fácil ensinar esta tão recente e polêmica discipilna, será possivel juntar "uma galera" no Pacaembu e administrar uma vídeo-aula? E um "Intensivão", como fazem nos cursinhos, aqueles que combram mais que as faculdades? Creio que não.
Portanto, meus caros, me parece uma situação não muito clara ainda, resta agora esperar e ver como se desenrola-rá essa trama, onde a falta de profissional qualificado mais uma vez preenche as vagas, é como dar uma caneta para um recém nascido e lhe dizer:"parabéns, agora escreve aí o que eu vou ditar."
São momentos como esses que me fazem pensar na globalização com um carinho especial, vejam só, o Brasil, negociando com a China, fazendo um trabalho de Português, que lindo.
Enquanto iPods e iPads ganham seus devidos espaços no consumo mundial, eu termino por aqui esse texto, porém com uma dúvida, se um produto apresentar algum tipo de defeito ou ser de baixa qualidade, ainda poderemos dizer:"tinha que ser made in china"? Sabe-se lá até quando.


Mutante Di Amsterdam-FGF

terça-feira, 12 de abril de 2011

A polêmica história verídica de Shyrlei Scânia

Paulão, assim conhecido das estradas, era caminhoneiro, trabalhava com caminhões de grande porte e era um cara parrudo, não admitia o homosexualismo, não gostava de judeus, sem entender o motivo, e era um eleitor fiel de Jair.
Paulão costumava trabalhar no período noturno, gostava de frequentar boates de estrada e consequêntemente, sempre atrasava suas entregas.
Certa noite, a vida mostrou ao caminhoneiro o porque de seu nascimento, colocando-o em situação bastante curiosa. Foi justamente no bordel "Noite a Dentro e Fora", que ele começou naquilo que logo menos se tornaria seu ganha pão.
Paulão encostara sua Scânia no posto de gasolina e caminhou até o night club que ficava perto dali.
Era pouco mais de 18h quando ele foi recepcionado por Rita, uma prostituta gorda que atuava mais como garçonete que dama de companhia, diferente de Ana, que por ser de aparência favorecida e simpática de corpo podia ganhar a vida honestamente como puta.
O agora cliente, sr.Paulo, pediu um sofisticado aperitivo chamado "Rabo de Galo" para beber e mandou que tocassem o disco de Agnaldo Timóteo na JunkBox. Com alguns trocados que escondia nas meias, o caminhoneiro adquiriu o serviço de dança erótica de Ana, a melhor cortesã da casa.
Ana, cujo o nome verdadeiro era Ana mesmo, caminhou sensualmente até o palco e ao som de "Amor Perdoa-me" iniciou sua dança erótica, serviço pago por Paulo. Ana estava feliz pois havia feito as unhas dos pés naquela manhã, pensou ter muita sorte, afinal, ela acreditava que nenhum homem iria gostar dela se não tivesse as unhas dos pés bem cortadas e pintadas na cor "vermelho 40graus". Paulo não notou, mas estava curtindo a dança, até que a lâmpada neon que ficava em cima do palco queimou.
Ana, assustada porém delicada e feminina, com medo gritou: "Puta que pariu!"
Paulão se levantou, mas antes tirou a mão de dentro das calças e bateu na mesa. Dona Rita, ao notar a insatisfação de seu cliente foi correndo dar uma explicação. Ela disse que não era a primeira vez que passavam por isso, pois a energia da casa era puxada do hotel ao lado e toda vez que o zelador ligava o chuveiro era assim. Paulão olhou sem entender, ele só queria saber se Ana terminaria a dança.
Nesse momento, Juca"três orelhas"Telles, o ajudante geral e segurança do lugar trouxe uma lâmpada nova para substituir a que havia queimado, porém, informou aos elegantes cavalheiros e damas do recinto que Barné, o filho do zelador tinha roubado a escada na noite anterior.
Ana se sentou e chorou borrando toda a sua carregada maquiagem dos olhos, Paulão vendo aquela situação resolveu que iria ajudar. O caminhoneiro notou que no palco havia um cano que ia do chão ao teto, bem ao lado do soquete de fios desencapados onde estava a lâmpada queimada. Perguntou a Rita se o cano era resistente, pois ele iria subir e realizar a troca. Rita explicou que as garotas dançavam "PoleDance" desde a inauguração da casa. Isso foi o bastante, animados com a atitude de Paulão, todos se levantaram e Juca"três orelhas"Telles, que também era o DJ voltou a música. Paulo parou em frente ao poste, e em cima do palco se sentiu especial. Não sabia se aquela chama que ardia em seu peito cabeludo vinha da boa ação ou por ser o centro das atenções. Mesmo asim, subiu, escalou, rodou e trocou a lâmpada queimada pela nova, que no mesmo instante se acendeu e iluminou a figura de Paulão, que não desceu do poste, mesmo sabendo que seu dever estava cumprido. Ao contrário do que se esperava, ele inclinou a cabeça para baixo, sorriu para o espelho e deslizou o cano até tocar o chão, depois, já de pé, rodou em volta com sua mão esquerda estendida, segurando firme o poste iluminado de verde neon e cantou, ao som de Agnaldo Timóteo o final da música.
Silêncio total, até que Juca puxou os aplausos. Resumindo a história, Paulo saiu da boate às 04h30, aplaudido e carinhosamente apelidado de "PauloDance". Vendeu seu caminhão e hoje se apresenta em casamentos e bailes de debutantes como Shyrlei Scânia "no cano, na manha".

Mutante Di Amsterdam-FGF

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A velhice e ou estado de espírito

Nem tão cinza assim e nem tão fria também, a tarde caía aos poucos como se alguém tivesse puxado o pano de seda que a encobria. Os pássaros todos se recolheram num movimento sincrônico como uma imensa marcha no céu, formando a figura de uma flecha atirada por ninguém.
Folhas correram sarjeta abaixo, o cachecol da moça se desprendeu de seu pesoço no outro lado da rua, os garotos seguravam suas boinas com uma das mãos enquanto a outra apertava a da babá, que tentava atravessar entre os automóveis.
Muito disso que acabo de descrever eu já vi por essas ruas, muito ainda se repetirá e algumas vezes eu estarei olhando, mas algumas não e outras ainda eu nunca mais verei. Me refiro à velhice, sinto-a cada vez mais próxima, não me importo, espero.
Penso às vezes que já fui como um daqueles garotos atravessando a rua, não me importava com o perigo de ser atingido por um automóvel por não seber, a falta de conhecimento, para mim, é o primeiro ingrediente na receita para a  felicidade.
Gente demais começa a me incomodar, assim como o excesso de luz, não consigo nem pensar direito, de tanto que me altero. Me foje a paz.
A mochila com os livros escolares eu abandonei há muito tempo, porém, há um acessório que ainda carrego comigo, não por gostar, mas por precisar, me refiro à minha sacola de remédios. Tenho remédios de várias cores, tamanhos, finalidades, tudo muito variado, menos o preço. Todos são caros para mim.
Já não vejo mais com tanta definição, acho mesmo que estou cego, ou quase, nem minha barba consigo aparar mais sozinho, por isso deixo, deve estar enorme, imagino que esteja. As idéias são um pouco atrapalhadas na minha idade, a mulher pela qual dediquei meu carinho, amor e atenção, já não me critica pela aparência relaxada ou gestos, ou até mesmo pela minha grosseiria, que reconheço ter tomado o lugar dos bons modos. Sou aquele a quem chamam de viúvo, nem mesmo sei o que essa palavra significa, mas essa é uma das definições do meu ser nessa sociedade onde eu só espero. Pronto, cá estou melancólico outra vez, agora basta, lá vem a enfermeira, deve estar na hora do remédio novamente, afinal, sinto minha consciência retomando seu devido lugar, não pode.

Mutante Di Amsterdam-FGF.