quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Lucille 3 estrelas

Sérginho Fivella era o típico cara rico, tinha carrão, apartamento de 200 metros quadrados, era o dono do próprio negócio e da empresa também, tudo que se possa imaginar de um cara rico se materializava em Sérginho.
Como herança de sua criação patriarcal, ele tinha muitas amantes e todas eram suas funcionárias. Algumas vezes Sérginho mantia caso com moças do mesmo setor, o que nunca dava certo, pois as amantes de Sérginho sempre achavam que estavam por cima das demais funcionárias, porém quase todas passavam nas mãos do chefe.
O gosto mulheril de Sérginho era variado, loira, morena, alta, baixa, gorda ou magra. Teve uma vez que ele saiu até com dona Heloisa, a ascensorista, ele dizia: "faça subir esse elevador aqui, sua danadinha", dona Heloisa que já passava dos cinquenta ficava um pouco tímida, mas por medo de perder o emprego manuseava o membro do fã clube do chefe. A única coisa que não mudava para Sérginho era o local dos encontros. Todas as amantes de Sérginho conheceram Lucille 3 estrelas, um motel de beira de estrada que só tinha as 3 estrelas no nome, porque nem o alvará para funcionamento o proprietário possuía. Mesmo assim, Sérginho gostava de frequentar o local, ele dizia que o constante cheiro de cândida lhe dava boas vibrações, ele sentia que naquele ambiente chulo, o ato da traição era ainda mais proibido, o que lhe enchia a cueca de vontade de pecar.
Regininha, a recepcionista mais gostosa da empresa reclamou com Sérginho quando fora com o chefe pela primeira vez ao mágico Lucille 3 estrelas, ela dizia:
- Aí, Sérginho. Nossa, a gente podia ir num lugar mas limpinho né gato?
Sérginho, espantado com a pergunta e preocupado em agradar Regininha responde:
-Cala a boca e chupa.
Outras moças também reclamavam com o chefe conquistador sobre os sórdidos detalhes estruturais do ninho de amor de mal agouro, mas ele não ligava, na verdade ele gostava é de ouvi-las reclamando, parecia mais submisso por parte das funcionárias de fácil relacionamento. Com excessão de dona Heloísa, que logo quando entrou no quarto com o chefe foi lavar a banheira e trocou os lençóis do Lucille 3 estrelas. 
Sérginho se lembra com saudades dos bons tempos, faz quase um ano que não frequenta o Lucille 3 estrelas com uma de suas amantes, ao que parece ele pegou uma espécie de ferida na pele que o deixa berebento e mal cheiroso. Sérginho não entende de onde pode ter contraído tal bactéria, ele só quer melhorar o mais breve possível para voltar a frequêntar os quartinhos humildes do proibidão Lucille 3 estrelas.


Mutante Di Amsterdam-FGF

terça-feira, 26 de julho de 2011

O rei do Stand up

Reginaldo se achava um cara engraçado, sempre contava piadas e fazia muitas brincadeiras com as pessoas que dividiam o mundo com ele.
O que Reginaldo não sabia é que ele não tinha o menor talento para o humor, na verdade, Reginaldo era conhecido sem seu conhecimento como "O mala", ninguém gostava de tê-lo por perto porque sabia que seria chata a sua companhia.
No mercado ele era o cara que abria o molho de tomate e passava o produto no rosto para simular um acidente, no elevador então era a encarnação da inconveniência, mas nunca ninguém havia dito para Reginaldo que não era engraçado e assim, anos se passaram e nada de mudança no jeito chato de Reginaldo.
Certa vez enquanto assistia TV na casa de sua avó ele descobriu o Stand Up, modelo de comédia em pé, num quadro muito ruim que passava nesses programas dominicais.
Encantado e decidido ele resolve entrar nessa e ser o rei do Stand up comedy.
A primeira apresentação foi num churrasco entre amigos:
- Boa tarde galera, pra quem não me conhece sou o Reginaldo, ou Odlaniger, para quem tem tumor e lê ao contrário!
Silêncio total, além das caras de indignação
- Bom, quem é que não gosta de rir não é mesmo, todo mundo gosta de rir, a não ser quem tá em baixo dágua não é mesmo, senão morre afogado!
Mais uma vez ninguém riu.
- Tô vendo que a platéia tá dificultando hoje, mas beleza, artista é assim mesmo, tem dia que acerta tem dia que não, é como se diz né, "ossos do hospício"!
Até que uma senhora que estava se servindo no churrasco perguntou:
- O senhor está nos chamando de loucos?
- Eu? Não minha senhora, no seu caso eu ficaria calmo para não sujar a fralda!
Nesse momento, o filho da senhora que era lutador profissional se levanta e por questão de bom senso a turma encerra o show de Reginaldo e pede para ele sair da festa.
Um pouco chateado, ele se senta no banco do ponto de ônibus e questiona seu talento de humorista, Reginaldo percebe que não é engraçado, lembra de todas as piadas que contou e associa a fisionomia das pessoas que as ouviram, ele percebe que nunca fora engraçado.
Então, o ônibus de Reginaldo chega, mas ele não sobe, desiste de voltar para a casa e triste tenta pensar em uma profissão nova. Várias opções passam pela cabeça de Reginaldo, mas nenhuma delas o agrada então ele se levanta e caminha sem rumo pelo bairro até que encontra uma das pessoas do churrasco que estava indo embora, um pouco tímido ele pergunta:
- Com licença, senhor, por acaso assistiu a minha apresentação?
- Sim, infelizmente sim, por que?
- Sou tão ruim assim?
- É sim, você é o pior que eu já vi.
- Poxa, obrigado pela sinceridade. Alguma dica?
- Desista.
- Tá bem, obrigado. Ah sim, uma última pergunta, o que o senhor faz da vida?
- Faço consultoria e trabalho numa grande rede de bancos.
- O senhor é bom no que faz?
- Sim, muito bom. Veja meu carro estacionado ali, aquele carro me custou mais de duzentos mil reais.
- Nossa, é muito dinheiro, acho que nunca o terei.
- Não se preocupe, você não precisa dele, você tem o seu humor. Muito ruim, é verdade, mas ainda assim você o tem. E eu, o que tenho a não ser uma posição social?
- O senhor não tem senso de humor?
- Nunca tive, eu não me lembro quando foi a última vez que eu sorri.
- Que pena, que pena. Bom, espero que sorria em breve.
- Obrigado, espero que não desista de melhorar seu humor.
- Eu não irei, obrigado. Até logo.
- Até logo.
Satisfeito, Reginaldo prepara seu novo texto para apresentar no próximo churrasco entre amigos.


Mutante Di Amsterdam-FGF

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O homem que lia garrafas

Do misticismo e suas vertentes, muitos já ouviram falar. Alguns até presenciaram fatos e apresentações daqueles que dizem obter provisões e afirmam com demasiada convicção manter contato com o extrafisico.
Mas de todos os meios já divulgados pelos ritos populares, nenhum chamou mais atenção que o do homem que lia garrafas.
Trata-se de um homem que viveu no século XVI, mais precisamente nos anos de 1516 à 1558, onde foi dado como morto após seu desaparecimento.
Seu nome era Felícius Lear, mais conhecido pela aristrocracia européia como o Mago in vitro, ou mago de vidro, por se tratar de um homem que dizia ter o poder de ler garrafas.
Alguns documentos da época narram suas atividades como "extraordinárias" e ainda, "magníficas", isso porque ele era capaz de prever o futuro de uma pessoa, se essa possuísse uma garrafa de vidro por mais de dois anos.
O Mago de vidro, quebrava a garrafa do cidadão atirando-a ao chão e da maneira que ela ficasse ele lia o fundo da garrafa, assim, era capaz de descrever todo o futuro dos seus clientes.
O seguinte diálogo foi tirado de um documento autêntico, ou não, com a data de 1533, onde temos um exemplo da atividade de Felicius.
" um homem se aproxima do Mago para lhe questionar sobre seu futuro, a partir de agora irei relatar todo o diálogo:
- Boa tarde, Mago de vidro.
- Pois sim, cidadão.
- Preciso que o senhor me diga o que vê em meu futuro.
- Trouxestes a garrafa?
- Sim, está aqui, era a minha garrafa de mel.
- De mel? Interessante, por favor, me entregue a garrafa.
- Sim, aqui está.
Nesse momento, o mago joga a garrafa no chão, recolhe a parte quebrada que detém o fundo da garrafa e analisando-a diz:
- Sua vida será doce, doce como o mel que fora cultivado pelos camponeses e cuidadosamente engarrafado e pelos artesãos.
- Nossa, o senhor viu todo esse processo?
- Não, é que eu também trabalho com mel.
- Sim, entendo, mas quebrar uma garrafa de mel e dizer que a vida será doce não faz do senhor um mago, na verdade isso parece mais uma campanha para divulgar o mel.
- Ora, como ousas duvidar de meus talentos, por acaso queres que eu lhe enfeitice ou coisa do tipo?!
- Não, não, perdão. De maneira nenhuma, é que eu queria mais detalhes.
- Mais detalhes? Muito bem, nesse caso devo dizer-lhe que tu irás morrer.
- Sim, que eu vou morrer eu sei, até hoje não tivemos caso de imortalidade por aqui, morrer todos iremos. É só isso que o senhor sabe?
- Não, mas devo partir agora, preciso me concentrar em outra coisa. Adeus, meu bom homem.
E assim, Felicius foge pela multidão que ofendida começa a vaiá-lo. Alguns exigem suas garrafas que foram quebradas de volta, ele ignora as pessoas e parte para outro condado, assim tem sido a vida do Mago de vidro."
Portanto, ao que parece, nem todos confirmavam o misticismo do Mago de vidro, aqueles que foram atendidos de maneira satisfatória por ele, prestam homenagens até as gerações atuais, colocando em cima de seus muros cacos de vidros quebrados cimentados ao invés de lanças, isso não apenas por ser um meio barato de proteger suas propriedades, mas para agradecer e homenagear o peculiar e polêmico Felícius Lear, o homem que lia garrafas.


Mutante Di Amsterdam-FGF


quarta-feira, 20 de julho de 2011

O temperador de saladas


Há quem goste como entrada, alguns preferem junto da comida, tem gente que só se alimenta delas, me refiro às saladas. Essas folhas diversas que colorem e satisfazem o paladar de quem as digere devem ser consideradas por muitos a parte mais saudável da refeição.
Isso depende de quem as prepara, de acordo com o temperador de saladas profissional, Azeheit LeMon.
Um tempero errado na salada pode deixá-la mais indigesta e calórica que um pedaço de carne ou um purê de batatas, de tão importante que é a arte de preparar saladas, arte essa que o Chef Azeheit domina desde muito jovem.
Tudo começou na pequena cidade de São Tomates da Roça, onde Azeheit foi criado pela sua família recém chegada ao país.
Ele tinha a tarefa de fazer a salada em casa, enquanto seus irmãos mais velhos cozinhavam e lavavam a louça do almoço e do jantar. Com o tempo, ele foi desenvolvendo um talento genuíno e inovador na arte de temperar saladas. Claro que no começo a família LeMon passou por situações constrangedoras com as invenções de Azeheit, principalmente quando ele tentou temperar uma sala de alface com chocolate amargo e amendoim, ficaram com um problema de diarréia generalizada, o banheiro era frequentemente disputado e o assento do sanitário não tinha tempo de esfriar. Fora isso, nada de muito grave afligira os degustadores das saladas desse rapaz.
A notícia se espalhou na pequena São Tomates da Roça e logo o menino Azeheit corria na sua bicicleta e ia temperando as saladas de toda a vizinhança, o que não era uma coisa fácil, pois na zona rural as casas são distantes umas das outras, mesmo assim, essa era uma tarefa que ele fazia com carinho e especial atenção.
Azeheit LeMon foi de São Tomates da Roça para o mundo, estudou fora do país e fundou um curso especializado para aqueles que também consideram por demais o ato por muitos considerado ínfimo que é o de temperar saladas.
Em sua mansão Azeheit possui uma obra enorme de ouro, uma réplica de um pé de alface! Achou que seria uma boa maneira de agradecer o sucesso que tem graças ao seu talento de temperador de saladas.
Hoje, ele está preso por ter invadido uma fábrica de temperos prontos com uma bomba amarrada na cintura. Claro que, descobriram que a bomba era falsa, mas Azeheit não sairá tão cedo do presídio por conta dessa atitude. Satisfeito por ser o temperador de saladas oficial da cadeia, ele aguarda o fim de sua pena que é de três anos. Depois disso, pensa em se desculpar ao dono da fábrica de temperos prontos e partir pra cima dos produtores de fertilizantes.


Por: Felipe Di Giorge Finati, o Mutante Di Amsterdam

terça-feira, 19 de julho de 2011

Zeca do Arco capítulo 4: O esquema do Ministro

A cidade estava calma demais, os pássaros cantavam na janela de Jose Carlos da Silva, o super herói brasileiro, era um Domingo tipicamente dominical, até Steicy acordar:
- Porra de passarinho, do carai. Zé, acorda e vai matar esses bicho, anda!
- O quê? Oi? Que foi amor?
- Ah..agora já perdi o sono, seu lerdo.
- Bom dia, então?
Sem responder Steicy Silva se levanta e vai assistir TV até Zeca do Arco lhe preparar o desjejum, era um Domingo muito especial para a família Silva porque na Quarta feira a pequena Luiza iria completar quinze anos de idade. Sabendo do novo cargo do pai, a menina não poupou exigências para sua festa de debutante, eis a lista:
-Um bolo de três andares
-Buffet
-Audio e vídeo profissional
-Um vestido igual ao da princesa inglesa, Kate.
-A presença de TODOS os integrantes do Restart
-Valsa com Fiuk
-Cabeleireiro da Lady Gaga
-Camarão e Champanhe
-Queima de fogos com o nome "Luiza"
-PlayStation 3 de lembrança para os convidados.
Ao terminar de ler a lista de luiza, Jose Carlos começou a chorar, ele não sabia como explicar para sua filha que apesar de ser um super herói, ele ganhava apenas dois salários mínimos e ainda tinha que pagar a condução. Desesperado, ele liga para Claudio e pede trabalho extra, a fim de ganhar mais dinheiro.
- Claudio, pelo amor de Deus, é o aniversário da minha filha!
- Ora sr. Zeca do Arco, ponha limites na menina, ela precisa de limites.
- Mas ela puxou à mãe!
- Nesse caso eu sinto muito, vou ver o que consigo e te ligo.
- Muito obrigado, muito obrigado.
- "Tá chorando aí, bonequinha?"
- Claudio, é a minha mulher, tenho que desligar, obrigado.
 No mesmo dia, Claudio retorna a ligação e Zeca precisa parar de lixar os pés de Steicy para atendê-lo, ela não gosta da atitude mas permite.
-Alô, Claudio?
-Zeca, é o seguinte, estamos desconfiados que o Ministro da casa civil está roubando verba do governo. Sua missão é investigar o caso e denunciá-lo se for verdade, se precisar use seu arco, mas apenas para intimidá-lo, ok?
-Mas ele não faria isso!
-Esperamos que não...
-Certo vou segui-lo dia e noite, usarei todos os meus disfarces, ele nem vai notar a minha presença.
-Muito bem, faça como achar melhor, aguardamos seu contato, boa tarde.
-Boa tarde.
Imediatamente Zeca liga para seu fiel companheiro, Robinson, o funcionário da rodoviária e consegue passagens para Brasília, onde reside o Ministro.
Quando chegou na capital, Zeca do Arco já tinha todo o roteiro pronto, sabia todos os lugares que o ministro passaria, então, ele fez a barba, vestiu uma roupa bem feminina, usou uma peruca, passou baton e resolveu assumir outra identidade para não ser notado, mesmo sabendo que o Ministro sequer sabia de sua existência. Durante os dois primeiros dias, ele se sentia envergonhado com as cantadas que recebia dos operários locais, mas depois começou a achar graça e até jogava beijinhos quando a cantada era boa. Ao terminar a semana, Zeca recebeu um telegrama em seu quarto que dizia para ele estar no restaurante do hotel as 19h. Ansioso ele resolveu pôr o vestido preto, mas depois notou que ao final da carta dizia: "venha como José Carlos, pelo amor de Deus".
Ao chegar no restaurante, se sentou na mesa 7, pediu uma cerveja e aguardou. Ficou lá por uns 45 minutos, mas foi o bastante para se sentir um pouco "alto" por conta das cinco latinhas que bebera, até que se senta em sua mesa um rapaz de camiseta de marca, calça estilo esporte fino e um chapéu igual ao do Indiana Jones, que diz:
-Boa noite, Zeca do Arco.
-Boa noite, homem misterioso. Esse chapéu é mesmo igual ao do Indiana?!
-Sim, mas não vim para isso.
Zeca do Arco ria de maneira exagerada para a situação.
-Vim lhe falar sobre o Ministro.
-O Ministro?Sei, sei, o que tem ele? Está bem?
-Sim, ele vai te matar amanhã, ao meio dia.
-O quê?! Ah meu! O que que eu fiz?
-Todos sabemos que você passou a semana toda seguindo o Ministro com aqueles trajes ridículos.
-Tem quem goste tá?
-Não me importa!
-Certo, o que posso fazer para não ser morto?
-Bom, o Ministro é um homem muito generoso, me mandou aqui para lhe oferecer R$ 100,000 para que você diga ao governo que não há irregularidade alguma na renda do Ministro. O que você me diz?
- Cem mil?!Nossa! Mas ele está disposto a gastar tanto assim comigo?
-Não se preocupe, o dinheiro não é dele.
-Ah sim, tudo bem. Mas eu teria que mentir, porque vi o tamanho do estrago que ele anda fazendo com o dinheiro público. Isso não seria correto!
-Certo, certo, pelo jeito o senhor aprende rápido, Zeca do Arco. Quanto seria correto para sua consciência não pesar?
-Eu diria que uns R$150,000 me faria concordar com o Ministro.
-O quê?! Hum, seu corrupto!
-Quem fala é que é!
-Mas que imbecil!
-Vai aceitar ou não, Indiana?
-Tá bem, mas com uma condição, você parte amanhã e avisa o governo que o Ministro é inocente, está claro?
-Sim, está.
-Adeus, o dinheiro está sendo colocado em seu quarto enquanto falamos, pode voltar
-Obrigado, mas que seja a ultima coisa errada que o Ministro faz hein.
-Não.
-Tá bem...eu tinha que dizer isso, é de praxe.
E assim, Zeca do Arco retornou a sua casa no dia seguinte e pôde dar a festa dos sonhos de Luiza, ele imaginou que toda aquela corrupção era contra os seus princípios, mas sua filha estava acima de tudo isso. Ele conta com orgulho a todos os amigos como a festa da filha deve ter ficado linda, isso porque ela não o deixou entrar no Buffet, mas tudo bem, ele ouvia a festa do botequim ao lado, com o copo e o peito cheio de orgulho de ser o líder da família Silva, a família do herói brasileiro.


Mutante Di Amsterdam-FGF

sábado, 16 de julho de 2011

Wander, a foca alcoólatra


Não era uma noite comum para Lucas, ele só não sabia disso ainda. Passava das 23h  quando seus pais lhe desejaram boa noite e foram se deitar, Lucas ainda ficou um pouco no computador assistindo alguns vídeos do 50 Cent, só para não ir dormir muito agitado.
Quando enfim deita em sua cama, olha para o relógio digital do criado-mudo que marca 01h00.
"Até que tá bom" diz para si mesmo em relação as horas de sono que terá, contando já a hora que o despertador irá acordá-lo.
Quando estava quase adormecendo, ouve um barulho em sua janela e levanta para ver o que poderia ser. Para a surpresa de Lucas, havia uma foca do lado de fora da janela, olhando para ele e balançando de um lado para o outro.
- Mas o que é isso? Uma foca?
- Não, sou um vaso de flores!
- Hey, e você fala! Nossa, vamos ser melhores amigos!
- É o caraio que vamos, pode parar de viadagem aí. Meu nome é Wander e eu quero te pedir um favor.
- Nossa Wander, mas você está bêbado! Como pode...
- Olha só, garoto, por que você não pega aquela garrafa de uísque que seu pai guarda lá na sala e traz pra mim que eu te falo o que você quiser saber?
- Mas aquela garrafa é para visitas, meu pai não deixa eu mexer nas bebidas dele.
- Seu pai que se foda...digo....Mas eu sou visita!
- É verdade Wander, tem razão. volto logo com sua garrafa.
E assim, Lucas trouxe a garrafa de uísque do pai e passou a noite conversando com Wander enquanto ele bebia. Certa hora da noite Lucas adormeceu, quando acordou com o despertador a foca já não estava lá. Por um momento ficou até pensando se tudo não passara de um sonho. Seguiu sua rotina normalmente, apesar de querer muito contar para alguém o que houve entre ele e Wander, a foca.
Na hora do jantar, Peterson, pai de Lucas chega do trabalho e pergunta a Sarah, sua esposa, sobre a garrafa de uísque.
- Amor, cadê a minha garrafa de uísque 21 anos que estava aqui?
- Não vi amor, você sabe que eu não bebo.
- É e também sei que a garrafa não ia sair andando sozinha.
- Calma amor, nossa.
- Calma? Calma? Calma o caralho, aquela garrafa tinha valor sentimental para mim, foi presente de meu pai quando o Lucas nasceu.
- Ah, pro inferno com sua garrafa...hei, onde você vai, o jantar tá pronto.
- Vou sair, perdi a fome.
Do seu quarto Lucas escuta toda a discussão e se sente um pouco culpado, mas ninguém acreditaria em sua história, por isso ele resolve ir se deitar, até que é acordado novamente com um barulho na janela.
- Wander, nossa, você está mais bêbado do que ontem. Está tudo bem?
- E aí mano, humpf, beleza? Por que você não me dá umas cervejinhas geladas que eu te mostro uns truques que aprendi no Sea World?
- Sério? Uau, já venho.
Lucas traz as cervejas para Wander a fim de ver os truques do Sea World, mas Wander estava mentindo.
- Desculpa garoto, eu nunca fui do Sea World. Mas olha só, hoje lá no bar tinha um otário reclamando que sua garrafa de uísque 21 anos havia sumido, dentro de sua própria casa! Que otário....
- Otário nada Wander, aquele era o meu pai, a garrafa que sumiu você bebeu ontem!
- Ah, então beleza...
- Beleza nada Wander, toma essa!
O garoto dá um chute no peito da foca que cai desfalecida no quintal.
No dia seguinte, a mãe de Lucas conta risonha na mesa a história de como encontrou uma foca morta no quintal pela manhã, todos riram muito, principalmente Lucas quando ouviu a mãe dizer que a coitadinha estava com cheiro de bebida.
A harmonia e a paz estavam de volta no lar dos Castilhos e todos foram se deitar, era mais uma noite calma e tranquila, até que Lucas ouve um barulho na janela de seu quarto.


Mutante Di Amsterdam-FGF

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O pianista de Stuntburg

De onde exatamente o boato surgiu ninguém soube explicar, o que se sabe é que não demorou muito para que todo condado comentasse sobre o pianista de Stuntburg, o melhor pianista do mundo.
- Será que é mesmo verdade o caso do pianista?
- Qual?
- O de Stuntburg
- Stuntburg? Todos sabem que é uma terra de mentirosos!
- Sim, é verdade, mas os boatos não param de chegar.
- De chegar de onde?
- De Stuntburg, ouso dizer.
- Não disse, não passam de mentirosos, devem ter inventado tal caso.
- Mas somos jornalistas, não será melhor irmos averiguar em nome da notícia.
- Talvez você esteja certo, mas vamos começar perguntando por aqui mesmo, tem gente do nosso vilarejo que comenta sobre isso.
- Certo!
Com a determinação lhes correndo nas veias, a dupla de jornalistas começa a coletar informações, para terem certeza de que convém ir à Stuntburg conhecer o pianista misterioso.
- Por favor, sr. ferreiro?.
- Sim.
- O senhor ouviu alguma coisa sobre Stuntburg recentemente?
- Tirando o caso do pianista que é um fenômeno, não.
- Hum, obrigado.
- Ah, sim. Sra. doceira?
- Doces?
- Não, obrigado. Na verdade gostaria de saber se a senhora também conhece os boatos sobre o melhor pianista do mundo?
- Seria o caso do pianista de Stuntburg?
- Sim, sim, esse mesmo. Obrigado.
E assim, passaram o resto da tarde confirmando a veracidade do pianista, até que decidiram ir conhecê-lo pessoalmente.
- Não acredito que estamos indo ver aqueles mentirosos.
- Se for outra mentira deles, nunca mais acreditarei em nada que venha de Stuntburg.
- E eu muito menos.
Ao chegar em Stuntburg, eles notaram que havia cartazes divulgando um concerto que o pianista faria no dia seguinte. Quase todos os estabelecimentos anunciavam que os ingressos estavam se esgotando. Para não perder a oportunidade, eles compraram também.
- Por favor, sr. alfaiate, quero um par de ingressos.
- Pois não, vocês estão levando duas passagens para o paraíso, até quem não gosta de música se apaixona pelo nosso pianista.
- Sei, sei. E por acaso é possível falar com ele agora?
- Ele não recebe ninguém nas vésperas de suas apresentações, sinto muito.
- Tudo bem, eu já imaginava. Obrigado.
- Não por isso.
Os jornalistas se alojaram numa pensão no centro de Stuntburg e adormeceram tão rápido que um deles se quer conseguiu terminar suas orações.
Na manhã seguinte, a cidade estava em festa, todos estavam ansiosos para a apresentação do melhor pianista do mundo.
- Mas será possível que esse pessoal todo esteja mentindo?
- Meu amigo, estamos em Stuntburg, aqui todos mentem!
- Eu sei, mas isso está exagerado demais.
- De fato.
Quando saíram para tomar o desjejum, notaram que havia um homem muito discreto sentado ao fundo do café em que estavam, ele mexia os dedos sem parar e evitava que as pessoas lhe vissem o rosto, logo, perceberam que se tratava do suposto pianista.
- Com licença senhor, por acaso és o tal pianista de Stuntburg, o melhor pianista do mundo?
- Ah não, mais um. Eu já disse para esse povo, eu não toco piano, nunca se quer vi um na minha vida!
- Aha! Eu sabia, não disse? Outra mentira.
- Só podia ser, não acredito que perdemos tempo vindo a Stuntburg, essa terra de mentirosos!
- Adeus, meu amigo "boa apresentação" e passar bem.
Assim, os jornalistas voltaram para casa. O povo do vilarejo estava curioso demais, todos perguntavam se eles gostaram da apresentação.
- E então, jornalistas, acreditam agora?
- Mas como "acreditam"? Não tem pianista nenhum, o homem é uma fraude!
- O que?! Meu senhor, assim o senhor zomba de minha sabedoria. Eu estava lá também, quase todo mundo aqui foi assistir o concerto!
- Quer dizer então que ele tocou o piano?
- Maravilhosamente bem, nunca vi nada mais belo em toda minha existência!
- Mas ele disse que não tocava, ele confirmou que era mais uma mentira do povo de Stuntburg!
- Justamente! Ele também é de Stuntburg, deve ter mentido para vocês dois! O espetáculo foi divino, que pena que não conseguiram registrar essa rapazes.
Enfurecidos com a própria falha, os jornalistas se conformam em escutar os boatos sobre o melhor pianista do mundo, o pianista de Stuntburg.


Mutante Di Amsterdam-FGF.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Do moderno atraso e seus megas problemas

Eu desafio para um duelo no C.S. aquele que, dentro da classificação das Pessoas Economicamente Ativas, afirmar que ainda não viu, leu ou ouviu nenhuma notícia sobre os tablets e celulares que fazem a maior onda na internet.
É tão espalhafatoso esse modismo que me sinto seguro em dizer que se tornou uma necessidade, não para moi, mas devo reconhecer seu espaço.
O Governo brasileiro noticiou a distribuição do serviço de internet banda larga de 1 mega a R$35,00 em um prazo de 90 dias. Veja só a proporção que tomou a necessidade de se postar sua dor de barriga na rede social ou "curtir" aquele vídeo estúpido no "Face". Claro, porque não venha me dizer que você acredita que as pessoas que precisam de uma banda larga em casa usam os seus computadores pessoais para realizarem pesquisas acadêmicas ou visitar os acervos de museus mundialmente famosos por exemplo. Não, não usam para isso, pelo menos não a grande maioria, o que não tem problema nenhum se levarmos em consideração os absurdos da televisão. Eu mesmo sou um desses, pode-se dizer que vejo de tudo na internet, da classificação Livre à  +18, isso porque não existe restrição maior.
Porém, nem tudo são flores no jardim que decora a área de trabalho do computador do brasileiro, estamos em 2011, se não estou enganado, e a grande parte do país ainda não tem acesso à internet ou se tem, é muito precária.
A velocidade oferecida pelas empresas monopolistas do serviço de banda larga, pelo menos até o momento, cobram um valor absurdo, porque eu realmente acho um absurdo, e oferecem um serviço de merda, seja no PC ou no aparelho móvel. Além de você pagar por uma aferição, vamos supor 1 mega, e ter que se conformar em não ter essa quantidade na integra 24 horas por dia.
Hoje paguei R$ 54,90 pela minha internet de 1 mega que é uma merda, não me dá segurança alguma, porém, para as minhas necessidades domésticas basta, demora um pouco para carregar os filmes "educativos" que eu vejo mas beleza, devo dizer que não foi isso que eu imaginei dos anos 2000, reafirmo minha frustração.
Exijo melhoras imediatas no setor que não para de crescer, e a distribuição do acesso à internet banda larga para todos os brasileiros, afinal, a tecnologia moderna que estamos pagando está bastante atrasada pelo preço que se cobra. Bando de safados.com.


Mutante Di Amsterdam-FGF

domingo, 10 de julho de 2011

Coração de rua, amor de mendiga

Em uma típica tarde de sol, numa linda e osiosa quarta-feira, estava eu a tôa como qualquer cara de vinte e três anos de idade, sentado no banco do parque da companhia de água assistindo a movimentação da lanchonete do outro lado da rua.
Trata-se de uma lanchonete enorme e muito movimentada, fica ao lado da emissora de televisão, muitos  a conhecem e alguns já a frequentaram, assim como eu.
Enquanto ouvia o barulho das folhas balançando com o vento, onde a única coisa que me tirava a atenção era um desses corredores amador que passava pela trilha de terra que ficava às margens do meu banco, eu a vi pela primeira vez.
Ela era uma mendiga, ou "moradora de rua", como gostava de ser chamada, ela corria no passeio de fronte à emissora. Na porta do enorme prédio comercial, Socorro  parou, abaixou sua calça de moleton rasgada, ficou em posição de cócoras e defecou rapidamente enquanto alguns funcionários desciam as escadas do prédio. Quando terminou seus afazeres, o que por sinal fora de uma rapidez impressionante, ela se levantou já com as calças nas mãos e deixou o lugar correndo e sorrindo de maneira alucinada e débil, nitidamente sob o uso de substâncias tóxicas.
Apesar da fétida primeira impressão, eu estava apaixonado, não por ser um daqueles caras que tem fetiche e são adeptos da coprofagia, mas por notar algo que ninguém havia notado na incrível Socorro, a maciez de sua pele escurecida pelo tempo que passara sem se banhar e um pouco grossa por conta de algumas feridas decorrentes de bactérias comuns.
Ela era muito bonita e eu a segui pela louca São Paulo até chegarmos a uma rua próxima ao metrô consolação, onde ela parou e se jogou ao chão. Aproveitando a deixa, eu me aproximei e perguntei seu nome, ela ria sem parar e fazia barulhos com a boca que pareciam ser característicos de possessão, mas eu ria também, queria convencê-la de que não a faria mal, tudo o que eu queria era levá-la para a casa, dar-lhe um bom banho e fazer amor com aquela mendiga gostosa.
Dentre os resmungos e grunhidos, ouvi o nome Socorro e assim a chamei, apesar do forte cheiro de urina, de perto ela era ainda mais bonita e sua pele ainda mais admirável. Eu comprei um pãozinho com presunto pra ela comer a fim de fazê-la recuperar um pouco a consciência, queria que ela soubesse quem era o homem que estava prestes a despi-la, não sou um tarado.
Quando ela parecia estar melhor, me olhou com os olhos puros de uma moça perdida que não consegue mais encontrar sua casa, deu vontade de beijar-lhe a boca, mas duvido que alguém conseguisse, tava foda.  Então contei para Socorro a minha intenção e perguntei se ela concordava em me dar prazer em troca de um banho, comida e roupas novas, afinal, é isso que toda mulher quer, seja ela mendiga ou madame certo?
Ela estava decidida a aceitar, tive certeza disso, mas de repente veio um soldado da polícia militar e a levou de mim sem nenhuma explicação.
Depois disso, nunca mais encontrei a Socorro, lembro que no dia ainda voltei à porta da emissora para olhar o seu belo cocozinho, era a última lembrança que eu teria daquela que talvez seria o meu grande amor, a bela e mal cheirosa Socorro.


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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Anésio e o feitiço do tempo

Às 18h de uma sexta feira ensolarada e propícia a bebedeiras, para os mais chegados, Anésio pega sua pasta de couro marron e tranca sua sala na agência bancária.
Ao passar pelo almoxarifado, ele ouve uns ruídos estranhos que despertam sua curiosidade principalmente pelo fato de a porta estar fechada.
Anésio para em frente a porta, ele era o único funcionário da agência que ficava até aquele horário no banco, o que o fez sentir um pouco de medo. Pensou em bater, mas concluiu que seria ridículo, afinal, qualquer um que estivesse lá dentro estaria errado por princípio.
Quando toma coragem e abre de uma vez a porta do almoxarifado, Anésio fica em silêncio. Atônito ele empurra a porta com a mão que a abriu e segue seu caminho com cara de espanto e calado.
O bancário sai da agência e no seu caminho para a casa ele passa pelo bar onde os outros colegas de trabalho o aguardavam com bastante carinho:
- "Aê viado, não vai parar pra tomar uma com os amigos não?!"
Anésio segue seu caminho com  a mesma expressão que deixara o banco e chega em casa depois de uma infernal  jornada pelos ônibus da cidade.
A empregada ainda estava na casa quando ele chegou, assustada com a aparência do déspota pergunta:
- Ai meu Jesus cristinho, o que houve seu Anésio?!
- O Jorge e o Celso da repartição estavam exibindo os mamilos um para o outro enquanto comiam bolacha recheada!
- Ah tá, olha seu Anésio, já deu minha hora viu. Uma boa noite.
- Mas o Jorge e o Celso...
- Sim, sim, eu ouvi. Acontece que minha religião não autoriza essas putaraiada de aviadado não. O sangue de Jesus tem poder. Passar bem.
E assim, Anésio ficou em casa repetindo a cena em sua mente até a hora de se deitar.
Durante todo o final de semana ele pensou naquilo, mal se alimentou e não tomou banho, estava com nojo de seus próprios mamilos.
Na segunda feira, ele tenta esquecer e seguir com sua rotina normalmente, porém, por volta das 15h alguém bate na sala de Anésio como se fosse para falar com ele:
- Toc toc, sr. Anésio Paratectus?
- Eh...sim, sim, pois não. Pode entrar.
Era Jorge, um dos exibidores de mamilo anônimo(EMA).
- Gostaria de saber se o senhor vai com o pessoal para o bar hoje.
- Hoje? Não vou a bar nenhum Jorge, hoje é segunda feira.
- O que?! Hoje é sexta Anésio, tá ficando louco?! Bom...até mais tarde.
- Sexta?!
Anésio olha para a tela do celular e confirma a data, realmente era sexta feira. Olha nos calendários do computador e o calendário de mesa que tem formato de pirâmide e realmente percebe se tratar de uma sexta feira.
- Mas o que é isso?
Ainda atordoado ele finaliza sua rotina e novamente pega sua pasta marron, tranca sua sala e decidido a sair do banco ouve outra vez os barulhos na sala do almoxarifado. Incrédulo, ele abre a porta, fica em silêncio total, fecha a porta e sai do banco.
Ao caminhar apressado para o ponto de ônibus passa pelo bar onde é chamado pelos amigos do banco:
- "Aê viado, não vai parar pra tomar uma com os amigos não?!"
Depois de uma odisséia nas linhas circulares do transporte público de sua cidade ele chega em casa onde é questionado por sua empregada que ainda estava em casa:
- Ai meu Jesus cristinho, o que houve seu Anésio?!
- Outra vez, Maria da Graça? Outra vez?
- Outra vez o que dotô?
 - Ahhh vê se me esquece.
- Xi, já vi que é melhor eu ir embora, minha religião não aprova esses comportamento de filhadaputisse dos outros não. Passar bem viu, seu Anésio.
- Mas o que está acontecendo?
E tudo se repetiu por mais duas semanas, Anésio saia de casa para trabalhar e estava sempre na sexta feira, via sempre os exibidores de mamilos, era chamado com carinho para beber com os amigos e sempre ouvia alguma pregação de sua empregada evangélica.
Até que um dia ele resolveu não abrir a porta do almoxarifado, mudou o caminho do ponto de ônibus e foi para a casa de um amigo até a empregada sair de sua casa. Finalmente parecia que Anésio estava livre do feitiço do tempo, pelo menos desde que saíra do banco nada daquilo havia acontecido. Sentado no sofá de seu amigo Pablo, ele conta a semana estranha que teve e pede licença para usar o banheiro pois a cerveja começava a trabalhar sua bexiga de beberrão.
- Pablo, me dá uma licencinha que vou ao banheiro, sim.
- Fique a vontade, você já sabe o caminho.
Pablo e Anésio eram amigos de longa data.
Então, ao abrir a porta do banheiro, Anésio fica em silêncio. Atônito ele empurra a porta com a mão que a abriu e segue seu caminho com cara de espanto e calado. Sem dar satisfações a Pablo ele sai pela porta da frente.
Ninguém nunca mais viu Anésio, dizem por aí que morreu de hemorragia após cortar os próprios mamilos.


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segunda-feira, 4 de julho de 2011

O bêbado e o caso do oficial McMannos

Na porta de uma taverna tipicamente inglesa, há uma correria intensa e desorganizada, onde bêbados e cortesãs tentam sair às pressas para se protegerem dos ataques de Hupert Brightstorm, um poeta local que se transforma num furacão quando extrapola os limites da sobriedade e novamente estava quebrando o interior do local onde os outros tentavam se entreter.
- Afinal, você vai me pagar ou não os copos que quebrou, seu bêbado?!
- Nenhum centavo, sua sóbria! Ahahahaha. 
- Saia já daqui, não quero mais saber de você entrando no meu comércio para destruir a paz de todos e minha mobília, vagabundo infame.
- Vou sair mesmo, ninguém merece a cerveja de merda que servem nessa pocilga!
- Vá embora! Saia já daqui.
Então, como já ocorrera outras vezes, Hupert deixa a taverna e vai se deitar sob uma árvore que está há pelo menos oitenta anos no bosque das orquídeas, no centro do vilarejo.
Por volta das duas horas da madrugada, Scott McMannos, o guarda de plantão, passa pelo bosque acompanhado de seu cachorro Rudolf e sua amante Josephine quando é obrigado a parar e averiguar o corpo que estava jogado sem explicação aos pés da árvore.
- Está bêbado ou morto? Responda em nome da lei.
Obviamente, Hupert adormecera de maneira bruta e profunda, do jeito que só mesmo aqueles que se embebedam de maneira demasiada extraordinária conseguem adormecer.
- Josephine, minha querida, volte para seu marido sim. Essa noite terei trabalho com esse aqui, não sei nem se está vivo. Me perdoe querida, sei que não é fácil dar explicações todas as noites para seu esposo, mas hoje não poderei lhe dar a atenção que mereces. Vá embora antes que alguém nos veja.
- Oh Scott, meus pesares não são maiores que meus desejos. Deixe que nos vejam, não me importo em pagar o preço por amar sem ser amada por meu marido.
- Mas eu me importo e muito, além do mais posso perder o emprego se um escândalo desses vaza por aí. Vá para a sua casa querida, nos vemos pela manhã.
Então, sem a companhia doce de sua amante e com o cachorro como tira colo, McMannos entra no bosque das orquídeas a fim de acordar, ou enterrar o homem que ali está.
Hupert parece se mexer um pouco ao ouvir os passos do policial, então acorda de vez quando lhe ecoa aos ouvidos os latidos ferozes de Rudolf, o cão policial.
- Mas o que está acontecendo, já disse que não fui eu!
- Calma senhor, está tudo sob controle, sou o oficial McMannos e este aqui é Rudolf, viemos ver em que condições o senhor está para podermos entender o porque de um homem adormecer aos pés de uma árvore com um frio desses.
- Está bem, eu bebi um pouco além da conta e não percebi onde estava. Agora se me der licença, estou cansado ainda e não lembro onde moro, passar bem, bem longe daqui.
- Temo que não, senhor. Levante-se em nome da lei, vou leva-lo a delegacia imediatamente. Vamos.
Ainda resmungando e começando a retomar a consciência, Hupert acompanha o oficial e seu cão, sentindo um pouco de frio nas pontas dos pés.
Na delegacia, McMannos o obriga a repetir exatamente o que houve. Então ele começa:
- Muito bem, meu nome é Hupert Brightstorm, sou o poeta local mais incompreendido de toda a Inglaterra, vivo com uma mulher que definitivamente não me ama e me deixa sozinho quase todas as noites com desculpas tolas e inaceitáveis, do tipo que não enganariam nem mesmo a uma criança cujo os dentes ainda são de leite. Nunca consigo publicar meus poemas, ganho tão pouco que prefiro nem mencionar minha renda, portanto eu vivo a beber, pois esta é minha única alegria nessa vida. Além do mais, está cada vez maior o número de pessoas que dizem encontrar minha mulher pelas noites com outro homem, acho até que se trata de um policial, com todo o respeito oficial, mas se descubro não sei o que sou capaz de fazer.
- Tudo bem, senhor Hupert. O senhor está dispensado, muito obrigado e uma boa noite. Lembranças a sua esposa, diga-lhe que foi o McMannos quem mandou.
- Pois não, obrigado, boa noite.   



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sábado, 2 de julho de 2011

A musa da Televisão

Da mesma maneira que ela chegou, partiu. Nem mais nem menos atraente, apenas ela, do mesmo jeito que a conheci, porém, com o peito preenchido pelo amor que depositei em seu coração.
Assim entrou o comercial do programa de TV com a apresentadora que eu acho muito linda.
Ela não me conhece, claro, mas eu acho bom ela não me conhecer mesmo, não sou flor que se cheire.
Quando passo na loja de produtos para a pele me lembro dela na propaganda do creme de amêndoas, tão sensual e delicada, é quase impossível reconhecer seu vício em cocaína, tadinha.
Dia desses teve uma tarde de autógrafos num desses shoppings que tem ligação com estação de metrô, mas eu não fui. Era o lançamento do novo CD: "músicas para o Senhor". parece que é crente agora, deve ser consciência pesada.
Gostaria de contar-lhe o destino do dinheiro do dízimo, mas depois pensei em deixar pra lá, podem querer me matar, sabe como é, criminoso é criminoso.
Meu pôster de papel de revista colado na parede já não é tão bonito, mas ainda presto minhas homenagens a ela por ele, é como um ritual sagrado no templo da sacanagem. Ela não sabe que faço isso também, penso que se souber é capaz de me cobrar algum dinheiro. Vadia, opa, desculpa, sou fã mesmo.
Enquanto trabalho feito um animal letrado de tetas, imagino o que ela deve estar fazendo ou com quem será que ela está. Até hoje não engoli a estória de pneumonia para justificar a internação, pra mim foi mesmo overdose, mas ela é tão pura que não divulgaram sua real natureza.
Conheço gente que conhece gente que diz ter vendido até craque pra ela, tadinha, deve estar carente ou depressiva, isso acontece muito quando se tem merda na cabeça.
Se pelo menos ela voltasse a falar com os pais, acho que já ajudaria a se recuperar das drogas, mas quem disse que o empresário deixa. Ela deve continuar obediente e dependente até quando não houver mais nada para apertar e nada mais para vender, aí ela pode ir chorar em outro programa de TV e pedir ajuda por estar passando por problemas financeiros.
Pronto, agora silêncio que o programa já voltou do intervalo.


Mutante Di Amsterdam-FGF

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Da sociedade atual


Aqueles canditados eleitos e reeleitos que juram solenemente servir à pátria em toda eleição merecem as vaias de um país humilhado e falso moralista.
Não podemos mais realizar pesquisa histórica, ou não poderemos em breve, a pedido de dois dos mais caricatos representantes da corrupção soviética que se camufla em Brasília (os senhores feudais do Maranhão e de Alagoas).
Ao onvés disso atentam-se os manifestantes às marchas em prol de um baseado. Não que estejam errados, estou com eles, mas confesso estupefato que ainda não ouvi ninguém nas ruas dizendo: " mostre-me os documentos da Ditadura, conte-me o que realmente aconteceu na guerra do Paraguai", entre outros inúmeros casos vergonhosos e egoístas que formam o passado da nossa pátria e que não poderemos mais ter acesso ou realizar uma busca histórica.
Imagino a fortuna que se faz com as "mega-Stores" nos shopping centers vendendo livros, cd's e dvd's, mas então caio em uma questão inevitável, porque somos tão burros e ignorantes?
Afinal, quem permite ser governado da maneira que se faz com o povo brasileiro deve ser burro ou ignorante.
Perdão por ser tão ofensivo, mas também sou um brasileiro e simplesmente gostaria de ver alguma diferença na dança das cadeiras que chamam de eleição presidencial.
Hoje não vou escrever um soneto, um conto ou alguma estória engraçada.
Hoje eu usarei este espaço lido por não sei quem, ou quantos, para fazer um protesto contra o governo ridículo e debochado do meu país, hoje a piada é comigo, com você e o Brasil.
Pelo fim da palhaçada parlamentar e a peste da corrupção.


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terça-feira, 28 de junho de 2011

A Mansão Bradley e os gritos do homem senil.

Na antiga Mansão Bradley, construída na segunda metade do século XVI, além das cadeiras imperiais, pinturas e outras obras cujo valor exorbitante se deve a escassez de seus caprichos, vive um homem esquecido pelo tempo.
Nascido há quase quatrocentos e trinta anos o velho Joshua Bradley não consegue morrer.
Auto intitulado como "o esquecido pela morte", Joshua vive isolado do mundo na mansão que pertenceu a sua família.
Sem sair de casa por ser prisioneiro de sua demência, o velho Joshua não se alimenta, não bebe água, não se banha e nem se levanta de sua cadeira de balanço há muitos anos.
Inúmeras escritas estão espalhadas pela mansão, desde a entrada principal até o último quarto de hóspedes, todas relatando a sofrida rotina daquele que não falece.
Os textos de Joshua começam a perder o sentido a partir do ano de 1682, quando ele relata o encontro com a Condessa d'Eu aos vinte e seis anos de idade. Trechos estranhos foram encontrados nas escritas, repetitivamente encontramos os dizeres:
- "Quem chega? Ande logo, posso vê-lo a silhueta daqui! Ah, sim....sou eu mesmo."
 Muitos deles se transformavam em hinos odiosos de Joshua para o que parecia ser ele mesmo, porém, num dos textos encontra-se a narrativa que descreve um rapaz de vida parecidíssima à de Joshua que a condessa estava a flertar e vez ou outra se encontrava as escondidas.
Porém, ao citar o caso ao então jovem Joshua Bradley a condessa ativa algum tipo de transtorno na mente do jovem homem velho que o maltrata e o transforma num insano sem paz até que aos poucos, depois de presenciar a morte de todos da sua geração e notar o envelhecimento de seu corpo começa a ter momentos lúcidos.
Quando consciênte, Joshua conta os anos que está vivo e se senta novamente tomando um cálice de vinho da adega de seu falecido pai.
Esse hábito é apreciado por Joshua enquanto a demência não lhe toma a mente, e ele começa a gritar por horas:
- "Quem chega? Ande logo, posso vê-lo a silhueta daqui! Ah, sim....sou eu mesmo".
Porém, numa certa manhã de lucidez, o velho escuta um barulho na porta da entrada principal:
- "Tem alguém em minha propriedade!"
Curioso ele caminha lentamente até a porta e gira a chave empoeirada para destrancá-la. O ranger da madeira é tão alto que ele vibra de incomodo. Na frente do velho Joshua encontra-se um porco, um pequeno porco que lhe diz:
- "Oinc, oinc. Quase me perdi."


Mutante Di Amsterdam-FGF

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Soneto da criação


Que vontade de querer criar
Que largada que tarda a soar
Trava a fonte que não deixo secar
Seca a tinta da caneta sem traçar.

Tanta idéia que não para de passar
Se ao menos uma eu pudesse agarrar
Conseguiria alguma forma de criar
Iniciaria para então poder terminar.

Um branco, nada, coluna vazia
O tempo passa e eu sumo nessa linha
Folha em branco que mancha minha alegria.

Criando eu produzo, parado eu existo
Existir é pior que a vida nos livros
O medo de criar é o grito do vivo.


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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Vizinho do container

fornecimento do preço da habitação modular personalizado contêinerEnquanto milhões de pessoas se dirigiam a seus trabalhos e o sol ganhava o céu com seu explendor celestial digno de louvor pagão, eu dormia deitado num colchão de molas que ganhara de um revendedor amigo de meu tio Asnoelio.
Para o desprazer de meu sono, fui subtamente acordado por um estrondo vindo do terreno que fica de fronte à minha casa.
Ainda sonolento e com um princípio de ereção me dirigi até a janela da sala enquanto retirava uma remela que mais parecia uma avelã no meu olho direito.
Foi então que notei um container instalado na frente da minha casa, um desses containers de carga, lacrado com uma janela e um caminhão que sumia no horizonte rumo a rua de baixo que dá acesso a uma avenida de grande movimento.
Ainda um pouco sonolento e surpreso resolvi me vestir e sair para ver de perto o container, acho legal ter um container mas não tenho. Vesti minha camiseta de ficar em casa, uma bermuda de basquete e calcei minhas botas, saí e respirei o ar poluído da cidade que moro.
Em volta do container não havia sinalização nenhuma, parecia estar fechado por dentro, o que achei muito estranho, então resolvi ficar nas pontas dos pés e olhar pela janela para enchergar o lado de dentro.
Para meu espanto e surpresa, havia um chinês dentro do container, aparentemente ele morava lá. Tinha uma cama baixa no canto oposto, uma geladeira que era usada como armário uma mesinha de TV com uma TV e várias caixas de papelão. Levei um susto enorme quando o chinês pôs seu rosto na janela de supetão e me sorriu com seus dentes podres de chinês.
Ele começou a falar sem parar, mas eu não conseguia ouvir uma palavra sequer por causa do vidro da janela, então sinalizei para o chinês apontando para meu ouvido e fazendo o gesto do "não" e ele abriu a porta do container rindo da situação embaraçosa. No movimento de abertura da porta, fui tomado por uma onda quente e mal cheirosa do ambiente.
- Bom Jia!
- Bom dia, chinês. O senhor mora nesse container?
- Chun morar aqui. Chun pode ser seu vijinho?
- Não sou eu quem decide isso.
- Ah. Tá bom né.
-Tá.
Voltei para a minha casa e liguei a TV, ainda pensando na bizarrice do "china", resolvi voltar e perguntar se ele gostaria de tomar alguma coisa, não me lembrava de ter visto comida naquele container.
- Hey, Chun.
- Plonto?
- Você quer tomar alguma coisa ou comer?
- Obligado, mas Chun espela amigo que já vem vindo, né. Eita, olha ele aí.
Então me aparece um anão esticando a mãozinha para me cumprimentar.
- Bom dia, senhor. Sou o Altonir.
- Bom dia Altonir, seu nome é uma brincadeira com sua condição de anão?
- Na verdade não, quando fui registrado minha família não sabia do nanismo.
- Entendo, nesse caso me perdoe.
- Tudo bem. Olá Chun!
Para completar a cesta de horrores que eu estava provando naquela manhã, o anão deu um beijo de língua no chinês.
- Altonir e Chun são namolados, eheh. Chun tá in love né.
- Tudo bem, então. Chun, me diga uma coisa, o que tem nessas caixas de papelão?
- Tem quase tudo: tênis, loupa, Ipad, Iphone, Vídeo-game, meias, DVDs e um pouco de maconha que Chun ganhou na bliga de galo né.
- Mas que droga de chinês, Chun! Vamos fazer negócio meu amigo!
- Ehehehe, Chun gosta! Quer beijar na boca aveludada de Chun também? Altonir não liga.
- Não ligo mesmo!
- O quê?! Não, seu chinês doente! Vou ficar só com as mecadorias mesmo, obrigado.
Aquele anão me assustava, devo confessar.
Então, até hoje compro tudo do Chun, muito barato e na frente de casa. Maravilha de dia o dia que se mudou o vizinho do container.


Mutante Di Amsterdam-FGF

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Bom gosto e requinte com Madame Sassá.


Na Riviera de São Lourenço, na 5ª Avenida, na cobertura no Morumbi ou no L´Ambroisie em Paris, sou madame Sassá. 
Acredito na humildade e me encontro nas coisas simples da vida.
Quem nunca viu o pôr do sol da sacada do castelo Bodiam, na velha Inglaterra?
Claro, qualquer um!  
Não admito pessoas que julgam as outras pela classe social, eu não. Credo, que coisa de pobre isso!
Outro dia mesmo minha empregada estava ouvindo o rádio no quartinho dela do lado de fora da casa, mas estava num volume tão alto que eu tive que cortar, entendeu.
Ai, tá louco! A gente dá a mão esse povo quer o braço.
Depois me aparece o motorista chorando: "Ah, madame Sassá, por favor, me dá o dia de folga hoje porque meu apêndice precisa ser operado."
Imaginem só!
Eu falei:
- "Ô Claudecir, vem cá, você é cirurgião agora, meu filho? O que sabe você? Ah não, vai trabalhar sim"
Vê se eu mereço uma merda dessa. O pior é que o imbecil ficou reclamando o dia inteiro até eu ter que levar a criatura pro hospital. Levei pro público, claro, tá pra nascer a pessoa que vai me convencer a gastar com empregado né bem.
Mas eu provei pra ele, o cara não tinha nada no apêndice, o problema dele era hérnia! Vê só!
Paciência, rico é assim, pensa que é fácil?
O que importa é ter humildade, porque problemas virão, outros "Claudecir" irão aparecer com certeza e precisamos estar prontas né amigas.
É como eu costumo dizer, pois é. Eu falo mesmo, o que?! Comigo não tem frescura não.
Gosto mesmo das coisas simples do dia a dia, como aquele mercado no centro de São Paulo por exemplo, tem tanta coisinha e é tudo tão barato lá. Além é claro de estar num dos cartões postais da cidade né. Eu mesma estive lá, acredita? Pois é, fiquei besta quando vi 100 gramas do caviar por trezentos e trinta Reais, o que é isso?!
Não, fala sério, tá muuuuito barato!
Já falei pro Ulisses meu marido, Amor, desse jeito qualquer um chega no nosso padrão de vida, querido.
Mas é isso mesmo, hoje em dia tá assim, qualquer um pode ter produtos da alta sociedade.
É como diz minha amiga Salete:
-"Celular hoje em dia tá igual a celulite, todo bundão tem."
Não é verdade?! Gente, é muito isso!
Bom, ainda bem né, tem que ser assim mesmo, ah não, eu sou super a favor do povão, tem que ter humildade.
Agora deixa eu ir que o meu jatinho sai em duas horas e eu ainda nem fiz as malas, acredita?!
Beijo, beijo.


Mutante Di Amsterdam-FGF

terça-feira, 14 de junho de 2011

A ave da erudição no lago dos patos


O que sabem os eruditos?
O que faz um ser humano se considerar ou ser considerado um erudito?
Seria o saber? Seriam as boas maneiras?
Será que os eruditos sabem o que penso deles?
Se a erudição é adquirida sobretudo pela leitura e pelo estudo, então estou com Arthur Schopenhauer.
Quanto mais se lê, menos se sabe. As informações se tornam superficiais, a leitura sobre determinado assunto se torna um fim, quando deveria se tornar um meio.
Tomemos como figura comparativa o pato, uma ave que atualmente é usada pelas grandes corporações como exemplo de estereótipo do comportamento adequado a um profissional de empresa.
O pato exerce uma série de atividades mas não é exímio em nenhuma delas. Nada, mas não é marinho. Anda,  mas não é terrestre. É uma ave, mas não voa.
Mas então que droga de animal é esse? Esse é o erudito.
Mas pode ser que não, pode ser que eu esteja errado, já aconteceram outras vezes.
Comparar um erudito a um pato pode ser uma ofensa, para o pato.
Radicais e arrogantes se julgam os donos do saber, da verdade e do bom gosto. Não que eu tenha algo contra a espécie (me refiro aos eruditos), eu apenas me questiono se o indivíduo que realmente exerce o saber sobre algum assunto tem tempo ou interesse em divulga-lo ou exibi-lo para aqueles que não o possuem.
O comprometimento deve ser tão grande que lhes toma a vida. Para se saber de algo qualquer, aquele que o faz se intrega em período integral a sua escolha. Não há tempo de aprender outras coisas ou ler mais sobre outros assuntos, senão, não será detentor do saber sobre o que lhe interessa saber. Pelo menos não do saber absoluto, mas sim do conhecimento superficial e assim atuam os eruditos.
Há tanto para se saber que não conseguiremos saber de tudo e sabemos disso, mas os eruditos não, eles insistem em serem eruditos em suas reuniões eruditas sobre superficialidades e coisa alguma.
A inteligência de uma raça como a nossa é finita e está em constante decadência, penso até em mencionar a lei dos rendimentos decrescentes, porém, antes que eu decida isso eu já o fiz.
Então, retomando um pouco o raciocínio, se o funcionário ideal para uma empresa é aquele a quem comparam a um pato, me sinto ridículo em uma sociedade imbecil e descartável.
Mas se eu estiver errado, me sentirei ridículo e esperançoso, o que pode agradar aos eruditos.
Por quê?
Essa é outra questão.


Mutante Di Amsterdam-FGF

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Lucius, o indigesto.


Na Roma antiga, dois prisioneiros aguardam serem chamados para servirem de refeição aos leões:
O primeiro é Lucius, acusado de ter desejado a mulher do imperador. O segundo é Marcus, acusado de urinar nas pessoas e proferir canções de mal-dizer ao imperador.
-Lucius: Ó, destino cruel. Preso por olhar a beleza de uma dama, o que mais poderia eu fazer diante daqueles olhos de rubi? O que será que nos aguarda caro companheiro?
-Marcus: Procure se calar, sim.
-Lucius: Seu grosseiro. Hey, pare de urinar em mim!
-Marcus: Que diferença faz, seremos comidos pelos leões mesmo.
-Lucius: Seremos comidos pelos leões?! Como assim?
-Marcus: Ora, vai me dizer que tu não sabias?
-Lucius: Não, nem imaginava. Mas não posso ser comido pelos leões. Socorro, por favor, está havendo um terrível engano aqui dentro, socorro!
-Marcus: Cale a boca, assim tu irás nos colocar em situação pior do que a que já estamos. Estás louco?
-Lucius: Não, ainda não, mas acontece que eu comi pedras no jantar de ontem, não posso deixar o pobre leão se alimentar de mim, deve ser indigesto.
-Marcus: Indigesto?! Você é louco mesmo.
Percebendo o grande falatório na cela, um soldado se aproxima:
-Soldado: O que está acontecendo aqui?
-Marcus: Meu amigo está louco senhor. Ele diz que comeu pedras e por isso não pode ser comido pelo leão, ele diz que será indigesto.
-Soldado: Você aí, prisioneiro, é verdadeira essa informação?
-Lucius: Sim, é sim. E eu sou um amante dos animais, não posso vê-los sofrendo, ainda mais por minha causa.
-Soldado: Está certo, concordo. Venha, o senhor será encaminhado para outro lugar, não se preocupe, não será devorado pelo leão nessas condições.
Indignado pela situação, Marcus não entende como o soldado livrou Lucius só por ter simpatia por animais.
Ele mexe os braços para fazer barulho com as correntes e grita ofensas ao guarda que retira Lucius da cela e tranca a porta novamente.
Horas mais tarde, o Soldado volta:
-Soldado: Sinto muito pelo seu amigo. Meus pêsames.
Sem entender, Marcus pergunta:
-Marcus: Como assim? Onde ele está?
-Soldado: Foi comido pelo leão.
-Marcus: Mas o senhor o soltou quando ele disse que tinha comido pedras!
-Soldado: Eu soltei?! Jamais, eu apenas levei o coitado para cagar, aquelas pedras realmente fariam mal ao leão. Pobre rapaz, nunca ouvi alguém gritar tanto para obrar.
Então, Marcus satisfeito começa a rir se urinar enquanto aguarda a sua vez de virar comida de leão.


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domingo, 5 de junho de 2011

Zeca do Arco- capítulo 3: O misterioso animal da Amazônia.

Quando Robson atendeu ao telefone da rodoviária ele agradeceu a confiança de José Carlos da Silva, o Zeca do Arco. O super-herói do governo brasileiro estava precisando de uma passagem para a Amazônia e Robson, ou Robinson como pediu para ser chamado, arrumou com sucesso a passagem de ida e volta para o arqueiro.
Jose Carlos recebeu a ligação do governo na Segunda -Feira de manhã, Claudio relatou o caso de um animal misterioso que estava comendo as fezes dos animais nas propriedades privadas da Amazônia. Ninguém conseguiu ver o bicho e nem capturá-lo até o momento, então, Zeca do Arco foi acionado para resolver o problema.
Enquanto fazia as malas, Zeca explicava para sua esposa Steicy, que ficaria fora por duas semanas, explicou também o problema que iria tentar resolver:
- Por isso, meu amor, tenho que partir e servir meu país.
- Servir seu país? Deixa de ser ridículo Jose Carlos. Te mandaram pegar um comedor de bosta aí e você tá se achando o Jeimes bondi!
Zeca ficou bastante magoado com a frase de sua esposa, nunca teve o apoio de Steicy, mas agora ela estava também ofendendo. Como já estava atrasado para o ônibus ele não discutiu, pegou sua bagagem e saiu.
Na rodoviária Robinson o aguardava ansioso, entregou a passagem e desejou boa sorte para o herói.
Jose Carlos adormeceu logo que o ônibus saiu da rodoviária rumo a Amazônia, ele tentou relaxar e se focar na missão, afinal, ele não sabia nem por onde começar a caça ao tal animal misterioso.
Muito tempo se passou e ele acordou ainda na metade do caminho, muitos ainda dormiam quando Zeca, surpreso gritou:
- Puta que pariu! Que burro!
Ele percebe que esqueceu o arco e as flechas em casa, agora Zeca era um arqueiro sem arco e mesmo assim deveria cumprir sua missão, não dava mais tempo para voltar.
Chegando na Amazônia Zeca é recepcionado por Zuleika, uma nativa muito sensual que acolhe o herói:
- Seja bem vindo, senhor José.
- Por favor, moça, Zeca do Arco.
- Sim, perdão.
- Tudo bem acontece. Bom, quer dizer então que a senhorita vai me encaminhar ao hotel? O que reservaram pra mim, um hotel 5 estrelas? Um quarto presidencial, igual ao do Kevin no “Esqueceram de mim 2”?
- Bem, na verdade não. O governo não liberou a verba, então o senhor vai dormir no sofá da casa de um dos moradores mesmo.
- Ah tá. Bom, tudo bem, quer dizer, pra que essa frescura toda de hotel não é mesmo? Estou aqui a trabalho e tenho uma caça a fazer.
- Isso! Muito bem! Agora me diga, zeca do Arco, cadê seu arco e suas flechas?
- Tudo a seu tempo minha jovem, tudo a seu tempo.
Sem graça, Zeca não quis dizer que havia esquecido a arma em São Paulo. Foi acompanhando Zuleika até que chegaram na casa humilde de dona Matilde e seu Ozório.
Dona Matilde mostrou não gostar da presença de Zeca em sua casa, mas não havia outra opção, tinha que permitir a hospedagem de José. Matilde cuspia no chão quando Zeca passava, seu Ozório ria sem parar e não fazia mais nada. Zeca resolveu sair e perguntar para os moradores o que estava acontecendo exatamente para depois pensar em uma solução. Seu relatório final foi:
Algum ser, animalesco ou não, tem aparecido nas madrugadas em pastos e campos privados e comendo as fezes dos animais, em especial das vacas.
Ninguém jamais viu ou ouviu alguma coisa, nenhuma das armadilhas convencionais já pegaram o misterioso animal, todos estão tendo prejuízo com gastos em segurança e estão tendo que importar adubo, pois sem o esterco não se faz adubo.”
Depois de analisar os fatos, Zeca do Arco pegou um arco emprestado e resolveu que iria passar a noite em claro para ver se encontra o inimigo público comedor de bosta.
Quando entrou na cozinha da casa da dona Matilde, se surpreendeu ao ver a velhinha jogando veneno em seu prato de comida.
- Dona Matilde, por favor!
- Ah, vai pro inferno seu vagabundo!
- A senhora pode ser presa sabia disso?
- Cala boca, sai da minha casa.
- Logo menos sairei, vou cumprir minha missão a senhora querendo ou não.
E Zeca saiu com o arco emprestado e ouvindo as gargalhadas de seu Ozório.
No meio da madrugada então, Zeca ouve um barulho estranho no quintal de um morador local. Muitos bezerros se afastam assustados e ele vê a silhueta do comedor de esterco no curral. Sem pensar duas vezes, Zeca prepara sua flecha emprestada e atira no meio do corpo do bicho.
Então ouve-se um grito:
- Aaaahhhh quem foi o filho da.....
- Opa! Eu conheço essa voz. Quem está aí?
E para a surpresa de todos, Zeca encontra dona Matilde com a boca suja de merda e uma flecha presa na nádega esquerda.
- A senhora? Claro, por isso queria que eu fosse embora!
- Você é um vagabundo!
- Nossa, por favor, alguém tem uma balinha aí?!
Todos riram, Zeca salvou a Amazônia do tal bicho misterioso comedor de esterco e estava pronto para voltar para casa, mas antes, perguntou para seu Ozório se ele nunca havia desconfiado da ausência da esposa nas madrugadas:
- Seu Ozório, o senhor nunca desconfiou?
- Eu sempre sube meu jovem. Por que o sinhô acha que eu ria tanto? Você também acharia graça se sua muié fosse comedora de bosta.
- Ahahaha, acho que sim, acho que sim.
Zeca abre uma cerveja e espera o horário do ônibus para voltar para casa. Com o sentimento de missão cumprida e um pouco embriagado ele se despede do povo da Amazônia e dorme. Afinal, ainda tem uma viagem longa pela frente.



Mutante Di Amsterdam-FGF

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Das coisas que não falei


Numa rua antiga, onde um bar decora a esquina de um bairro francês, dois cavalheiros conversam na madrugada fria de Paris.
Um fidalgo muito bem vestido:
-Como é? Calma, repita por gentileza.
Um boêmio maltrapilho:
-Das coisas que não falei, omiti todas elas. Também pudera, ninguém jamais ouvira antes palavras tão não ditas assim.
Fidalgo:
-Eu não entendo, meu senhor.
Boêmio:
-E nem vai, não há nada para se entender das coisas que não falei. Entende agora?
Fidalgo:
-Ah, sim. Ohohoh. Muito bem rapaz, muito bem.
O fidalgo sai balançando a mão esquerda num jesto de adeus misturado com "você quase me pegou nessa", mas na verdade, ele ainda não havia entendido. Não satisfeito ele entra num bordel e se senta para beber. Repete inumeras vezes a frase "das coisas que não falei, omiti todas elas."
-Mas o que será que isso quer dizer?
Algumas cortesãs se aproximam do velho bem trajado, ele convida a todas para tentarem lhe explicar o que significa a frase que não sai de sua cabeça. Pobre velho, não sabe que cortesãs não são muito favorecidas de raciocínio, não entendem lógica ou jogos de palavras, só sabem dar.
Então o senhor de roupas caras adormece no sofá do bordel e lá mesmo, sonha com o momento que passou com o boêmio, porém, estranhamente, no sonho é ele quem diz a frase para o rapaz maltrapilho.
Um fidalgo muito bem vestido:
-Das coisas que não falei, omiti todas elas. Também pudera, ninguém jamais ouvira antes palavras tão não ditas assim.
Porém, para o espanto do velho, o boêmio entende o sentido e o sonho se torna mais confuso do que a realidade já havia tornado.
Um boêmio maltrapilho:
-Meus ouvidos se espantam com o silêncio de sua voz, nunca ouvi nada tão não dito antes.
Fidalgo:
-Espere, o que você disse? Diga de novo filho, por favor.
Mas então o fidalgo acorda e se sente com vontade de ir para a casa.
Ele tentou outras vezes encontrar o boêmio maltrapilho, ou até mesmo sonhar com ele, mas nunca conseguiu. E para todos que lhe dava atenção na rua, desejando um bom dia ou apenas acenando com uma das mãos, ele perguntava a mesma coisa:
-Afinal, o que quer dizer a frase: "das coisas que não falei, omiti todas elas".
Todos olhavam com estranheza para o fidalgo, mas só lhe davam o silêncio, nada mais que o silêncio.


Mutante Di Amsterda-FGF