sexta-feira, 27 de maio de 2011

Condra e a máquina de escrever

Condra queria porque queria uma máquina de escrever.
Pediu de natal, pediu de aniversário, pediu até de casamento, mas nunca recebeu de ninguém a tão desejada máquina de escrever.
Certa vez, Kilian, amigo de Condra indagou:
-Pô, Condra. Estamos em Dublin, por que você não vai até uma dessas lojas de antiguidades e compra uma máquina de escrever para você?
-Ora Kilian, não vou me entregar desse jeito, desde pequeno que eu peço a máquina de escrever e nunca ganhei. Agora que cresci devo desistir e ir comprar eu mesmo? Não, senhor. A máquina deve ser entregue a mim como um regalo, deve ser presente.
-Ah, mas que bobagem! Já sei, você compra a máquina e pede para entregarem no seu endereço. Assim parecerá presente.
-Não seja estúpido, não vê que isso é coisa de gente esquizofrênica?
-Tá bem, desculpe, foi só uma idéia.
-Já sei!
-O que?
-Você compra a máquina e me dá!
-Eu é que não vou gastar meu dinheirinho suado numa coisa velha daquelas.
-Não, eu te dou o dinheiro.
-Então não serei eu comprando a máquina, mas você!
-É mesmo. Bom, já vou indo, nos vemos amanhã.
E assim, Condra foi para casa mais uma vez sem sua máquina de escrever.
Na manhã seguinte, quando saiu para trabalhar na fábrica de molho de tomates, Condra notou que o vizinho da frente estava jogando o lixo e no meio dos sacos havia uma máquina de escrever.
Sem perder tempo ele correu para se certificar.
-Bom dia, Constantin.
-Oh, bom dia, Condra.
-Isso aí no seu lixo por acaso seria uma máquina de escrever?
(Aquele poderia ser o momento que Condra estava esperando desde pequeno, ele estava ansioso, não se importaria nem se a máquina estivesse quebrada, bastava Constantin oferecê-la para ele).
-Sim, é sim. Nem sei o que essa tranqueira estava fazendo dentro de casa. Um monte de lixo velho desse eu não ofereceria nem para um mendigo. Passar bem.
Constantin fecha a porta da frente acabando com a esperança de Condra.
Ainda parado na entrada de seu vizinho, ele pensa em ganhar aquela máquina de escrever, afinal, não veria outra daquela tão cedo.
Então, ele tem a idéia de esperar passar o lixeiro e ver se o próprio oferece a máquina de escrever.
Eis que, duas horas depois, quase 10h da manhã o lixeiro passa e encontra com Condra olhando para o saco de lixo.
-Bom dia, senhor. Esse lixo é seu?
-Não, não. Mas estou notando que há uma máquina de escrever aqui, vocês recolhem máquinas de escrever também?
-Bom, nunca aconteceu, mas a gente recolhe, tá no lixo certo? Por que, o senhor quer ficar com ela?
(Pronto! Aquelas palavras soaram como mágica para Condra, ele era o homem mais feliz de toda a Irlanda por poder ficar com aquele saco de lixo).
-Sim, mas é claro, muito obrigado senhor lixeiro. Como é o seu nome?
-Meu nome é Olivetti, mas não precisa agradecer não.
-Muito obrigado, Olivetti!
Então, feliz como uma criança dos anos noventa que ganha um N64, Condra se senta ao chão e abre o embrulho do seu novo presente. Ele está muito feliz, bate tecla por tecla.
-Veja isso, todas estão funcionando!
Grita da sala.
Até que sua mulher aparece com uma cara não muito contente e diz:
-Você não foi trabalhar, não é mesmo?
-Sim, é verdade, mas olha só o que eu trouxe!
-Condra você tem idéia de como está difícil a situação do país?
-Sim, lastimável...
-E ainda assim você deixa de ir trabalhar e me aparece gritando com um saco de lixo nas mãos?
-Bem, falando dessa maneira não parece muito legal, realmente.
-Muito bem, Condra. Seu chefe ligou, você foi demitido, acho bom você se concentrar em ganhar um emprego novo agora, já que a máquina de escrever eu percebo que já ganhou.
-Certo...
Então, Condra passou os próximos dias usando sua máquina de escrever constantemente, para fazer seus currículos.
Ainda não conseguiu nada, mas adora tentar.


Mutante Di Amsterdam-FGF

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