segunda-feira, 11 de abril de 2011

A velhice e ou estado de espírito

Nem tão cinza assim e nem tão fria também, a tarde caía aos poucos como se alguém tivesse puxado o pano de seda que a encobria. Os pássaros todos se recolheram num movimento sincrônico como uma imensa marcha no céu, formando a figura de uma flecha atirada por ninguém.
Folhas correram sarjeta abaixo, o cachecol da moça se desprendeu de seu pesoço no outro lado da rua, os garotos seguravam suas boinas com uma das mãos enquanto a outra apertava a da babá, que tentava atravessar entre os automóveis.
Muito disso que acabo de descrever eu já vi por essas ruas, muito ainda se repetirá e algumas vezes eu estarei olhando, mas algumas não e outras ainda eu nunca mais verei. Me refiro à velhice, sinto-a cada vez mais próxima, não me importo, espero.
Penso às vezes que já fui como um daqueles garotos atravessando a rua, não me importava com o perigo de ser atingido por um automóvel por não seber, a falta de conhecimento, para mim, é o primeiro ingrediente na receita para a  felicidade.
Gente demais começa a me incomodar, assim como o excesso de luz, não consigo nem pensar direito, de tanto que me altero. Me foje a paz.
A mochila com os livros escolares eu abandonei há muito tempo, porém, há um acessório que ainda carrego comigo, não por gostar, mas por precisar, me refiro à minha sacola de remédios. Tenho remédios de várias cores, tamanhos, finalidades, tudo muito variado, menos o preço. Todos são caros para mim.
Já não vejo mais com tanta definição, acho mesmo que estou cego, ou quase, nem minha barba consigo aparar mais sozinho, por isso deixo, deve estar enorme, imagino que esteja. As idéias são um pouco atrapalhadas na minha idade, a mulher pela qual dediquei meu carinho, amor e atenção, já não me critica pela aparência relaxada ou gestos, ou até mesmo pela minha grosseiria, que reconheço ter tomado o lugar dos bons modos. Sou aquele a quem chamam de viúvo, nem mesmo sei o que essa palavra significa, mas essa é uma das definições do meu ser nessa sociedade onde eu só espero. Pronto, cá estou melancólico outra vez, agora basta, lá vem a enfermeira, deve estar na hora do remédio novamente, afinal, sinto minha consciência retomando seu devido lugar, não pode.

Mutante Di Amsterdam-FGF.

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