Rapaz, dia desses eu estava sentado ao banco da praça quando ela passou, linda de viver, com seu vestido branco com flores amarelas e azuis, cabelos curtos, cacheados com uma presilha que imita borboleta. Logo perguntei para Onofre, que estava ao meu lado:
- Bicho quem é esse broto fenomenal?
Onofre, que conhece a todos no bairro respondeu:
- É a Dorinha, ela mora no 274, vizinha de Vilma.
- Onofre, acho que estou amando loucamente essa bonequinha.
- Ora, Martinho, essa garota é papo firme, jamais ficaria com alguém com a fama de mau como a sua.
- Escuta o que eu to te falando cara, esse broto vai ser meu, mora?
- Mas és um sonhador mesmo.
Na manhã seguinte, cheguei mais cedo, pode até parecer pretensioso da minha parte, mas eu trazia flores para agradar Dorinha, eu estava ansioso, quando de repente, fui surpreendido por Onofre, que se sentara ao meu lado com seu melhor paletó, e trazia uns botões de rosas consigo.
- Ora Onofre, que fazes aqui com essas flores, e essa roupa? Só te vi com esse paletó quando fomos ao velório do Sinval, há uns dois anos, mas o que é isso?
- Pronto, agora eu te devo satisfações, Martinho?
- Já saquei o que está acontecendo aqui, você veio cortejar Dorinha também, só para me prejudicar, qual que é a tua, o cara?
- Isso mesmo, eu vim pra isso mesmo, por acaso não posso me apaixonar, será você que decidirá os rumos do estúpido cúpido, eu gosto da Dorinha sim, além do mais, eu vi primeiro.
- Ah é, Onofre, pois então pode vir quente que eu estou fervendo!
E foi isso mesmo, era só o que me faltava agora, estar apaixonado pela namoradinha de um amigo meu. Fiquei sem falar com Onofre por uns dez minutos, até que ele me cutucou:
- Veja, veja Martinho, lá vem a Dorinha, vou me apresentar, não me atrapalhe ou então te mostro o que é bom pra tosse.
- Bom dia Dorinha. Trouxe essas flores para te agradar.
- Ah, muito obrigado, Onofre, mas na nossa idade isso não pega bem, imagina o que vão dizer lá em casa.
Então, eu dei o meu primeiro passo:
- Muito bom dia Dorinha, sou o Martinho, amigo de Onofre, eu te trouxe essas flores para me apresentar, assim não vai pegar mal quando você chegar em casa.
- Ora, muito obrigado, meninos. Agora preciso ir, ainda tenho que fazer o almoço.
E Dorinha se foi. Ah, não sei se mencionei, mas Onofre e eu temos 72 e 70 anos, respectivamente, Dorinha deve ter uns sessenta e poucos, não perguntei porque fica mal no primeiro encontro.
- Ta vendo só Onofre, ela nem ligou para seu paletó do Jerry Adriani, ela gostou mesmo foi de mim, mora?
- Só porque você quer Martinho, a garota é papo firme e ta na minha.
Logo menos a tarde caiu, acordei Onofre e fomos embora. Na manhã seguinte repetimos o gesto, e na seguinte e na seguinte e nos próximos dias que vieram, não demorou muito para sermos conhecidos como os velhos babões que cortejam a dona Dorinha, mas nem ligamos, acho mesmo é que os rapazes de hoje em dia nem sabem como se portar diante de uma pequena.
Mas Dorinha nos deixou com os corações nas mãos, ficamos sabendo pela sua neta que ela falecera na última semana, mas que todos os dias falava sobre os dois velhos babões que a cortejava e lhe dizia palavras doces na praça, disse também que sua passagem para a eternidade fora feliz e pacifica, ela falecera em sua poltrona com duas cartas nas mãos, uma minha e a outra de Onofre. Não quis comentar na hora, mas tenho certeza que ela gostou mais da minha.
Descanse em paz, broto fenomenal, pena que não pude te levar para ver as curvas da estrada de Santos, ou para tomarmos um banho de lua juntos, mas tenho certeza que nos veremos outra vez.
Mutante Di Amsterdam-FGF
Nenhum comentário:
Postar um comentário