Às sete horas da manhã tocou o despertador de Cidinha, mas ela não se levantou. Sete e cinco tocou novamente, seu sono estava ainda mais pesado pois ela sequer o parou. Às sete e dez tocou outra vez. Do lado de fora da casa humilde de Cidinha, as pessoas que passavam para trabalhar conseguiam ouvir o som do despertador que reproduzia a belíssima canção do grupo Calipso:' "A lua me traiu".
Alguns pedestres um pouco mais inseguros tiravam seus fones de ouvido para certificarem-se de que realmente ouviam aquele som. O rapaz de bicicleta que vendia pães quentes parou e inclinou o rosto em direção a janela do quarto de Cidinha, ao calçar seu pé direito no pedal para continuar seu caminho, comentou o gosto musical duvidoso da dorminhoca com os seguintes dizeres: "que porra é essa?!"
Achei fino e sutil, eu mesmo não conseguiria me expressar melhor. Sei de tudo isso porque eu estava na calçada da frente, sou vendedor ambulante e tenho aqui o DVD do show do Calipso inclusive. Alguns comentavam com seus parceiros se aquela se tratava de uma casa de preguiçosos, se os moradores não teriam medo de se atrasar para os seus empregos, até sobre um possível óbito matinal comentou-se, porém, vez ou outra ouvia-se o tapa da Cidinha desligando o alarme.
Às sete e quarenta e cinco o alarme disparou novamente, Martha, a vizinha evangélica de Cidinha começou xingar e proferir palavras direcionadas à Cidinha que se o pastor de sua igreja ouvisse ficaria até vermelho. Mesmo assim, às oito horas o relógio tocou outra vez.
O bairro se mobilizou para tomar alguma atitude, a princípio muitos se mostraram preocupados com os possíveis problemas que Cidinha pudesse ter por não se levantar no horário programado, mas conforme o tempo foi passando, a preocupação foi se transformando em raiva e já chegava o momento de algumas pessoas atirarem pedras e ovos na janela de Cidinha, que inocente dormia o sono dos justos, afinal, depois de 56 anos de trabalho como doméstica, Cidinha estava aposentada, não tinha horários, não precisava se levantar, mas parece que sua liberdade e seu direito de deixar o despertador tocando e desligá-lo, como uma espécie de revanche por ter que se levantar ao som dele todos esses anos, parece que isso não era bom para o povo que se agrupava na janela de Cidinha, eles não sabiam mais nem o motivo daquilo tudo, mas gritavam e atiravam coisas sem parar. Com medo, a aposentada desligou o rádio e se levantou, meio sonolenta ainda e com a vista sensível à luz ela olhou pela porta da frente. Aquele bando, furioso e violento,xingava e atirava coisas na casa de Cidinha, até que um deles falou: "Finalmente acordou né, velha do caralho". E ao som de alguns burburinhos as pessoas retomavam seus caminhos até que a rua voltou ao seu movimento normal. Curiosa, Cidinha ainda de camisola, aliás, uma visão que eu preferia não ter presenciado, me perguntou o que estava acontecendo. Eu, sem saber até hoje o porque, disse que o povo estava reclamando pois o som estava muito baixo. Espantada por todo aquele movimento e ainda meio sonolenta, ela prometeu que na manhã seguinte aumentaria o volume e providenciaria uma caixa de som externa para que não ficasse muito alto dentro de seu quarto, mas que todos na rua pudessem ouvir.
Daquele dia em diante, mudei meu ponto para a rua de cima, mas até hoje há quem diga que a história acabou muito bem, a casa da Cidinha se tornou um "point" entre os jovens, a aposentada começou a fazer docinhos para vender e toda semana arrecada mais de duzentos reais. Pena que semana que vem a prefeitura irá multa-la por quebrar a lei do "psiu".
Mutante Di Amsterdam-FGF
Sensacional!!
ResponderExcluir